Obrigado José Morgado, de Aurélio Santos

Contribuição de Aurélio Santos

para a homenagem a José Morgado em 17 de Dezembro de 2011, Pegarinhos

(lido por Celestina Leão)

 

Foi nesta aldeia de Pegarinhos (a capital do universo como, com graça e orgulho, lhe chamava) que a 17 de Fevereiro de 1921 nasceu José Cardoso Morgado Júnior. Único filho de um casal de pequenos proprietários, foi na escola da aldeia que fez a instrução primária. Os dois primeiros anos de liceu foram feitos em Favaios, onde relevou a sua espantosa e invulgar inteligência. Foi o olhar atento e a generosidade de alguns professores que permitiu que José Morgado continuasse a estudar porque a mãe, já então viúva, não tinha condições económicas para custear a continuação dos estudos do filho que para o efeito teria de ir para Vila Real a 60 km de distância.

Também ali o jovem continuou a revelar-se um aluno brilhante tendo terminado o liceu com a nota máxima.

A suspensão do ingresso nas Escolas do Magistério Primário fez com que José Morgado não pudesse realizar o seu sonho de menino: ser professor primário. Assim, rumou para o Porto onde tirou a curso de ciências matemáticas na Faculdade de Ciências do Porto e onde foi aluno do Prof. Ruy Luís Gomes de quem se viria a tornar grande amigo. Inicia a sua carreira de professor de liceu e dois anos mais tarde, apenas com 24 anos ingressa como assistente do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa. Mas a primeira fase da vida de José Morgado como professor universitário revelou-se bem curta. Por razões politicas, uma deliberação do Conselho de Ministros em 1947, exonera-o das funções, afastando-o do ensino bem como a um grande grupo de outros cientistas portugueses, entre os quais Crabbé Rocha, Manuel Valadares e Francisco Pulido Valente.

Recorde-se que estamos a falar da chamada geração cientifica dos anos 40, e do surgimento de um grande movimento matemático, que pretendia romper o isolamento cientifico em que Portugal estava mergulhado e que teria sido promissor se não fossem as investidas da ditadura fascista.

José Morgado que se viria a revelar mais tarde, no Brasil, um ilustre professor, reconhecido internacionalmente vê-se obrigado a sobreviver de explicações.

Mas a sua verticalidade não o faz vacilar. José Morgado vivia entre duas paixões - a matemática e a luta pela instauração de um regime democrático em Portugal e não hesitou em hipotecar a sua carreira de professor para hastear bem alto a bandeira da luta do nosso povo pela liberdade.


Quando em Março de 1949 é criado o Movimento Nacional Democrático, José Morgado surge, juntamente com o Prof. Ruy Luís Gomes, com a Eng.ª Virgínia de Moura e com a escritora Maria Lamas, entre outros, como membro da sua Comissão Central.


E não é de mais aqui lembrar o importante papel desenvolvido por o MND na política de unidade antifascista, tentando abrir caminho ao derrube do regime, precisamente num momento de particular endurecimento da repressão e de grande perseguição aos democratas. Era a contra-ofensiva de Salazar e do «Estado Novo» à primeira crise sofrida por este regime em consequência do grande movimento da oposição surgido em Portugal após a derrota da Alemanha de Hitler.

 

Num gesto de inegável coragem, apesar das dificuldades do momento que se vivia, mas reconhecendo a primordial importância da unidade dos democratas e a necessidade de continuar a assumir a denúncia do regime, o MND publica documentos sobre as prisões ilegais, sobre a selvajaria e brutalidade da PIDE, sobre a corrupção financeira existente nosso país, sobre as farsas eleitorais, etc. etc.

 

É um destes documentos «pacto de Paz não de agressão» que será a base de acusação para a prisão de José Morgado em 17 de Dezembro de 1949.


É na prisão que escreve uma das suas primeiras obras de matemática sem recurso a qualquer suporte bibliotecário que lhe é vedado.

 

Como membro do MND apoia activamente a candidatura do Prof. Ruy Luís Gomes à Presidência da República em 1951


Em 1960 impossibilitado de trabalhar em Portugal parte para o Brasil.


O seu trabalho como Prof. na Universidade de Pernambuco, bem como de outros matemáticos portugueses que por ali passaram contribuiu decisivamente para que esta faculdade tenha sido considerada por muitos como a melhor faculdade de matemática da América latina.


Apesar de longe continuou a preocupar-se com a futuro da matemática em Portugal, continuando como redactor da Gazeta Matemática e sobretudo a preocupar-se com a situação politica, não deixando, sempre que a oportunidade o permitia, de denunciar o que se passava no nosso país. Em 1965, em conjunto com o Prof. Ruy Luís Gomes endereça uma carta ao Secretário da Nações Unidas solicitando que esta organização intime os Governos de Franco e Salazar a prestar contas á opinião mundial sobre o desaparecimento do General Humberto Delgado. Em 1968 assina uma carta aberta dirigida ao Cardeal Cerejeira, em que lhe são feitas duras e justas acusações das conivências do cardeal com os crimes do Estado Novo. Em 1969 remete em conjunto com o Prof. Ruy Luís Gomes uma saudação ao II Congresso Republicano de Aveiro.


Mas, José Morgado não se preocupou exclusivamente com a situação politica do seu país, tomando posição pública sobre questões da América Latina. Recorde-se aqui a posição pública condenando a invasão de Granada publicada sob a forma de publicidade em 1983. no Jornal de Notícias.


O seu sonho no exílio realiza-se com o 25 de Abril. Regressa ao seu país, não sem primeiro cumprir as obrigações para com a faculdade onde trabalhava. Já entre nós retoma a carreira docente.


Nunca se escusou, indiferente às consequências que daí lhe podiam advir, de tomar posição sobre questões que considerava importantes, como o apoio público à Reforma Agrária, e o problema dos salários em atrasos. Saliente-se a extraordinária lucidez de análise política que encontramos no texto «Vasco Gonçalves e a recuperação capitalista».



Nunca saberemos se foi destas serras e destes montes que lhe serviram de berço que arrancou a frontalidade e a coragem que lhe conhecemos, nunca saberemos se foi na precisão dos números da sua querida matemática que se forjaram a rectidão de carácter e a firmeza de princípios que o caracterizaram. Talvez tenha sido tão simplesmente um profundo amor pelas gentes simples desta aldeia que o viu crescer, que lhe inculcou esse grande amor pela Humanidade que revelou ao longo de toda a sua vida, e que o levaram a impor a si próprio uma luta incessante pela Democracia, pela Paz e pela Liberdade.


Mas, frágil é a homenagem que se fica pelas palavras. Homenagear um homem como José Morgado é, seguir-lhe os passos, hastear a sua bandeira, lutar pelas suas causas.

Há seis décadas o MND e José Morgado através deste, diziam-nos «...assegurada a participação do Povo na vida política nacional pode-se encarar de frente a resolução de todos os problemas económicos e sociais».


Seis décadas que mudaram o rosto deste país mas não retiraram a validade da ideia então proferida - as crises, sejam elas quais forem, venham elas de onde vierem, não se podem resolver sem o Povo, e muito menos contra o Povo. Cabe-nos a nós não nos deixarmos excluir, cabe-nos a nós exigir decidir do nosso próprio destino


Por isso viemos hoje aqui para te dizermos: - vivem-se de novo tempos difíceis, tempos em que o medo espreita e a incerteza assusta, mas não desistiremos de defraudar ao vento a tua bandeira, a bandeira da Democracia da Liberdade e da Paz. Não desistiremos de caminhar pela estrada que tu ajudaste a abrir.


Obrigado José Morgado.