Intervenção Rosa Macedo na homenagem aos tarrafalistas

Intervenção de Rosa Macedo, Conselho Directivo da URAP, na romagem ao mausoléu dos Tarrafalistas, no Cemitério do Alto S.João, em Lisboa, a 25 de Fevereiro de 2012

Amigos,

Mais uma vez, viemos aqui homenagear homens simples que se tornaram heróis. Eram operários, marinheiros, intelectuais. Acreditavam na sua Razão e, por ela, estavam dispostos a dar a vida. Do navio "Loanda" desembarcaram no dia 29 de Outubro de 1936 na Achada Grande do Tarrafal, ilha de Santiago em Cabo Verde, "a primeira leva, de presos, 34 dos quais eram jovens marinheiros, que iriam inaugurar o Campo da Morte Lenta, copiado dos campos de concentração nazis. Muitas outras se seguiriam.

Situado entre os montes e o mar, e onde não havia árvores, mas vento e pântanos na época das chuvas, onde imperava o flagelo dos mosquitos transmissores do paludismo, e que muitas vezes levava à biliose e à morte.


Foram sujeitos a trabalhos forçados, espancamentos, humilhações, e outras torturas, como por exemplo, a da tristemente famosa "frigideira", uma caixa de cimento de 9 metros quadrados, onde a luz e o ar só entravam por escassos buracos sobre a porta, e onde o calor e o frio eram insuportáveis.

 

O Campo de Concentração do Tarrafal constituiu uma das faces mais brutais do regime fascista em Portugal. Nele estiveram presos 340 portugueses e nele foram assassinados 32 antifascistas durante os anos entre 1936 e 1954, ano em que foi encerrado, após grandes campanhas de denúncia e protesto dos movimentos antifascistas. Foi reaberto em 1962, com o início das guerras coloniais, para os patriotas das colónias portuguesas, em luta pela independência dos seus países. E, só em 1 de Maio de 1974, após o derrube da ditadura fascista, o sinistro campo de morte do Tarrafal foi definitivamente encerrado.

Hoje, estamos aqui, junto à última morada dos tarrafalistas assassinados no Campo da Morte Lenta, no seu Mausoléu, construído devido à tenacidade daqueles que, tendo sobrevivido àquele cortejo de horrores, como Faria Borda e Francisco Miguel, entre outros,  não descansaram enquanto não trouxeram para a sua terra, os restos mortais dos seus companheiros. E mais de 200.000 pessoas os acompanharam, debaixo de uma chuva intensa, desfilando até aqui, ao Alto de S. João, numa demonstração de reconhecimento pela sua luta, pelo seu amor ao seu Povo.


Amigos,

O 25 de Abril trouxe-nos a Liberdade  e conquistas por que muitos lutaram ao longo dos anos. Mas o capital não desarma e, os tempos de hoje, estão marcados por uma ofensiva feroz contra o que conquistámos.


A URAP, ao mesmo tempo que luta contra o branqueamento do fascismo e tudo faz para preservar a memória dos que resistiram contra a ditadura fascista, tem-se juntado àqueles que não se conformam com esta situação e continuam a luta por um Portugal melhor.


É um compromisso que temos para com aqueles que hoje viemos homenagear, os que, como diz a lápide, "Na longa noite fascista foram portadores da chama da Liberdade e pela Liberdade morreram no Campo de Concentração do Tarrafal".

 

25 de Abril Sempre!

Fascismo Nunca Mais!

 

Lisboa, 25 Fevereiro/2012