Intervenção de Pedro Soares nas comemorações do 25 de Abril em Setúbal

Minhas senhoras e meus senhores, amigos, companheiros, camaradas, em nome dalegação de Setúbal da URAP, a todos saúdo cordialmente nesta evocação do 25 de Abril de 1974.

Faz hoje 39 anos que a ditadura terrorista da grande indústria, da alta finança e dos latifundiários foi derrubada.

Foi um levantamento militar armado e o povo português, na continuação da sua intensa luta e vendo-se de mãos livres, lançou-se à conquista do céu.

Um país colonialista e colonizado alcança a paz nas colónias, instaura uma ordem democrática, olha o futuro com os pés no presente.

Os tiranos perderam as alavancas do poder, a polícia política foi desmantelada, os pides presos, os prisioneiros políticos libertados.

Os portugueses sorriam uns aos outros, mesmo sem se conhecerem. A poesia tomou conta das ruas, como disse Sofia – cantava-se em côro ou em silêncio.

Foram meses de extraordinária emoção.

O escultor José Aurélio, nesta peça aqui junto, lembra-nos de forma algo inesperada como o povo lhes fez frente, como foi possível enfraquecer e dissipar a força da onda, manter a coesão... e não ceder.

Com Salazar e Caetano no governo os portugueses tiveram que enfrentar durante décadas os desmandos de um punhado de familias; Mellos, Espirito Santo, Miguel Quina, Champalimaud, Jorge de Brito, Manuel Vinhas, Bulhosas, Feteira, Bordalos, Brandão Miranda, A. Magalhães, Conde de Caria, Pinto de Azevedo, Queiroz Pereira... Tudo era deles e para seu proveito.

Os jornais , as revistas, a rádio e a televisão, e a censura prévia e as prisões...

Foi por eles que em 1936 Salazar criou o Tarrafal, para onde foram deportados 340 portugueses antifascistas, 32 dos quais por lá morreram. De Setúbal era Manuel Graça e também José Manuel Alves dos Reis, que lá morreu.

Evocar a resistência dos democratas – com especial destaque para o PCP – longos anos de clandestinidade e de prisões dos seus militantes – é hoje absolutamente necessário para que se reconheça que nas condições de democracia política ameaçada a luta contra o monstro não acabou.

A observação atenta da realidade económica, social e política do país, integrado que está na Europa dos Monopólios da UE, permite compreender que os interesses que prevalecem neste imenso espaço são os mesmos que apoiaram Hitler, Mussolini, Franco e Salazar.

Nos meses que antecederam o nazismo na Alemanha, o filme dos acontecimentos fala por si:

19 de Novembro de 1932. Um grupo de banqueiros, grandes industriais e latifundiários solicitam ao presidente Hindenburg que nomeie Hitler chanceler do Reich.
4 de Janeiro de 1933. O chanceler alemão von Papen encontra-se com Hitler na residência do banqueiro von Schroder.
30 de Janeiro de 1933. Hindenburg nomeia Hitler chanceler, de imediato o parlamento é dissolvido e convocadas novas eleições para 5 de Março.
4 de Fevereiro de 1933. Hindenburg assina um decreto que proíbe toda e qualquer crítica ao governo e restringe a liberdade dos partidos de esquerda, o partido comunista alemão primeiro.
27 de Fevereiro de 1933. O incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, deu a necessária desculpa para a rádio acusar os comunistas como autores do crime; nessa mesma noite 10.000 cidadãos: comunistas, socialistas, democratas de diferentes sensibilidades são presos. As liberdades de reunião e de expressão são suspensas. Foi rápido.

A comissão para os assuntos económicos do governo de Hitler integra Gustav Krupp von Bohlen, o rei da indústria das armas, Fritz Thyssen, o barão da indústria do aço, Carl von Siemens o rei das industrias eléctricas, Karl Bosch, senhor das indústrias químicas.

Palavras para quê?

São os poderosos senhores da banca, da especulação bolsista, do crime organizado.
São os campeões da fraude e da evasão fiscal, agentes da corrupção activa e passiva, uma teia de ministros, deputados, presidentes, membros de família real, cavaleiros de indústria que fazem o que prometeram nunca fazer, que afirmam 5 minutos depois o contrário do que tinham dito.

São os que destroem o arvoredo para salvar as ervas daninhas, que dizem aos escravos que o trabalho liberta.

Nunca esqueceremos que o Reichstag foi incendiado para dar pretexto à caça às bruxas, o campo de concentração de Dachau, o primeiro que Hitler criou, próximo de Munique, e para lá foram enviados milhares de comunistas, padres católicos bávaros e polacos, judeus, homossexuais e outros... e acabou com 50 milhões de mortos e a destruição de cidades inteiras.

A guerra colonial mobilizou 150.000 soldados, levou o horror e a morte aos povos das colónias e não há família portuguesa que não tenha conhecido as suas violentas consequências: filhos sem pai, pais sem filho, mulheres sem marido, famílias destroçadas, militares estropiados ou diminuídos para toda a vida.

E até o campo da morte lenta, o Tarrafal, que Salazar se viu obrigado a fechar em 1952, foi reaberto 10 anos mais tarde, por decisão do ministro do ultramar, Adriano Moreira, para lá punir os patriotas africanos. Não, o combate não acabou.

Por essa Europa fora, a miséria e a exclusão social propiciam o racismo e a xenofobia, como ainda há dias se viu na Grécia onde o povo enfrenta a agressão da troika e do governo de Atenas.

Com o agravamento da crise geral do capitalismo, perante a intensidade das contradições, os senhores só nas guerras e na destruição buscam alívio e solução para os graves problemas que criaram e já não podem resolver.

Em Portugal assistimos hoje a um permanente baile de máscaras, onde alguns que dançam tropeçam, perdem a máscara... mas o baile continua.

A constituição da República, a ordem democrática saída do 25 de Abril, é hoje constantemente ofendida por orgãos de soberania que têm a estrita obrigação de respeitá-la e fazê-la cumprir. Há hoje uma insanável contradição entre a soberania e os interesses do país e as imposições da Troika.

Não, a luta não acabou!

Amigos, companheiros, camaradas, a URAP foi fundada a 30 de Abril de 1976 por destacados combatentes contra a ditadura e que com grande coragem tinham criado a comissão de socorro aos presos políticos durante a ditadura de Salazar. Após o 25 de Abril desenvolve uma constante actividade em defesa dos valores democráticos. No passado dia 2 de Março a Assembleia Geral da URAP aprovou uma resolução em que protesta contra a política do governo PSD/CDS que tanto aflige o país e os portugueses e se dispõe a lutar em defesa da democracia e dos valores inscritos na Constituição da República Portuguesa. Desta resolução foi dado conhecimento à Assembleia da República, à Presidência da República, ao Governo, ao Provedor de Justiça e à Federação Internacional de Resistentes de que a URAP é membro. É em nome da delegação de Setúbal que vos falo.

Amigos, companheiros, camaradas, tal como Aurélio Santos assinalou na sua intervenção no Simposio Internacional sobre o campo do Tarrafal " ... o fascismo não é um fenómeno conjuntural, especifico de uma determinada conjuntura. Tem carácter universal, com raízes sociais e económicas que aparecem como resposta desesperada, numa economia em queda,

de sectores que pretendem impor pela força a manutenção do seu domínio, subordinando aos seus interesses o conjunto da sociedade e usando para isso a violência e a repressão. A denúncia do significado do fascismo e do colonialismo mantem-se como exigência actual. Mais ainda porque as novas gerações não conheceram, felizmente, as consequências dramáticas da dominação fascista e do colonialismo, nem as abomináveis concepções da ideologia que quiseram impor (...) nas esolas e na comunicação social amordaçada.

Deixo-vos com esta fábula de Bertold Brecht:

O lobo foi ter com a galinha e disse-lhe: - devíamos conhecermo-nos melhor, para vivermos com amor e confiança. A galinha achou bem e foi com o lobo. Foi por isso que as suas penas ficaram espalhadas por todo o lado.

Setúbal, 25 de Abril de 2013