Intervenção de Feliciano David na homenagem a José Barata

Intervenção de Feliciano David na homenagem José Barata por ocasião do seu 97º aniversário
31 de Agosto de 2013, Clube Estefânia, Lisboa


Estamos aqui hoje por um motivo muito importante: homenagear o nosso querido amigo José Barata que acabou de fazer 97 anos e é um cidadão exemplar.

Homenagem justa que a URAP lhe quer prestar pela coerência que demonstrou, ao longo da sua vida, na luta pela liberdade e por uma sociedade mais justa e igualitária.

Desde muito cedo, apenas com vinte anos, então marinheiro, teve a coragem de em 1936 participar, com outros camaradas na tentativa para derrubar a ditadura de Salazar.

E nós sabemos como foi terrível a repressão que há 77 anos se abateu sobre estes valorosos combatentes da liberdade.
militante do partido comunista, o nosso amigo José Barata foi um dos primeiros democratas desterrados para o Tarrafal.
O campo de concentração do Tarrafal foi criado em 1936, em cabo verde para desterrar os presos políticos que se opuseram à ditadura de Salazar.

Logo, nesse ano, partiram de Lisboa os primeiros 153 prisioneiros, a maioria dos quais eram os marinheiros de que o José Barata fazia parte que participaram na revolta dos marinheiros da ora – estrutura politico militar\clandestina ligada ao PCP, que tinham ocupado os navios de guerra Dão, Bartolomeu Dias e Afonso de Albuquerque.

com eles foram, também os revoltosos do 18 de Janeiro de 1934 na marinha grande cuja acção constituiu a primeira tentativa revolucionária para derrubar a ditadura de Salazar e que levou á prisão de muitos dirigentes comunistas, entre os quais o seu secretário-geral Bento Gonçalves, cuja morte ocorrida no Tarrafal pouco depois configurou um verdadeiro assassinato.

Mas para uma análise contextualizada dos motivos subjacentes à criação desta colónia penal importa fazer o enquadramento político da época, em Portugal, bem como no contexto dos movimentos de extrema direita que então grassavam na Europa.
O nazi/fascismo alastrava pela Europa, apoiado pelos grandes grupos financeiros e industriais e de armamento que estavam a preparar a II Guerra Mundial.

Com efeito, na Alemanha, em 1933, Hitler subiu ao poder. Na Itália Mussolini já impusera a ditadura fascista.
Na Espanha, em 1936, franco, num levantamento militar, deu início a guerra civil, com o apoio de Hitler, Mussolini e de Salazar. Para derrotar o governo de esquerda que tinha sido eleito democraticamente pelo povo.
Em Portugal, em 1926 no golpe de estado de 28 de maio os militares tomaram o poder depondo o governo republicano e instalaram uma ditadura.

E uma das primeiras medidas dos militares foi iniciar uma feroz perseguição a todos os democratas que se lhe opuseram e que, a partir de 1932, atinge maior repressão quando Salazar assume plenos poder, após ter sido nomeado presidente do governo.
Mas, contrariamente, aos que pretendem falsificar a história, afirmando que a ditadura assumiu o poder sem grande resistência popular os movimentos de oposição estiveram activos por todo o país, em particular o partido comunista, na clandestinidade, que em 1931, liderado por Bento Gonçalves, procedeu à sua reorganização e criou várias estruturas organizativas e deu início à publicação do avante
Cito, a propósito, que em 1934 Álvaro Cunhal, estudante da faculdade de direito, e militante comunista, foi eleito pelos colegas para os representar no senado da universidade de Lisboa.

A esta onda de contestação Salazar respondeu com uma forte repressão., em particular quando criou, em 1933, a polícia de vigilância e defesa do estado (PVDE), que antecedeu a PIDE.

Foi neste contexto que Salazar criou o campo de concentração do Tarrafal que representa a face mais negra da repressão fascista da ditadura.
E ao criá-lo inspirou-se nos campos de concentração que Hitler começava então a montar na Alemanha e estendeu, mais tarde aos campos de extermínio nos países ocupados pelos nazis.

Pelo Tarrafal passaram 357 presos cuja soma dos anos de prisão excedeu 2000 anos nas piores condições de vida agravadas pelo flagelo do paludismo que levou à morte de 37 prisioneiros dos quais sete morreram logo em 1937.
Nesse ano chegou um médico ao tarrafal que actuava como verdadeiro carcereiro, que não tinha medicamentos e se limitava a passar certidões de óbito.

Os prisioneiros eram sujeitos a torturas e frequentemente castigados e colocados na "frigideira" nome que se dava a um pequeno edifício de cimento, um verdadeiro buraco que exposto ao sol aquecia de dia pondo a suar os prisioneiros e arrefecia à noite, com a cacimba pondo-os a tremer de frio.

Como nota refiro que Francisco Miguel foi o último preso político a sair do Tarrafal.
Mas, a tenebrosa história do Tarrafal não termina aqui. Na sequência da guerra colonial o campo foi reaberto em 1961 para acolher os patriotas das colónias portuguesas que lutavam pela independência dos seus países.
Nesse sentido o Tarrafal é, também o símbolo da luta antifascista que une os que em Portugal lutaram contra a ditadura fascista e colonialista de Salazar e os nacionalistas africanos que lutaram pela libertação dos seus povos.
Sobre este assunto recordo o excelente texto que Aurélio Santos elaborou em 2009 quando refere (e passo a citar):" no Tarrafal se cruzaram a história de dois continentes"

Caros amigos

Preservar a memória do que passou no campo de concentração do Tarrafal é imperioso para que os jovens não esqueçam o que foi o fascismo.
E isso assume a maior importância no contexto político actual perante os últimos acontecimentos, em Portugal e na Europa que não podem deixar de nos preocupar e estar vigilantes por que a democracia não é um dado adquirido para sempre.

Nos últimos anos temos assistido às tentativas de reabilitação política de Salazar. E recentemente a câmara de Braga, de maioria do partido socialista, acaba de presta homenagem ao cónego melo, um reconhecido apoiante dos ataques bombistas perpetrados pelo movimento terrorista de extrema direita/fascista do MDLP com ligações aos assassinos do padre Max.

A profunda crise social que o governo actual têm imposto ao país que põe em causa o estado social e leva ao desemprego e à miséria de milhares de portugueses pode criar o caldo que fomente o aproveitamento de tentativas aventureiristas de extrema direita.
Com efeito, a liberdade e a democracia participativa, económica e social tem inimigos poderosos. A globalização e a livre circulação de capitais acentuou o poder dos grandes grupos financeiros que tudo dominam.

Na Europa crescem movimentos neo-fascistas com particular gravidade na Polónia, na Hungria, na França.
Por isso, a defesa da constituição e dos direitos fundamentais conquistados com a revolução de Abril, que estão a ser constantemente violados, pondo em causa o edifício democrático nacional, é um tarefa que temos de continuar a assumir.

A URAP e todos os democratas ao manterem viva a tenebrosa a memória do Tarrafal lembram que quem esquece a história corre o risco de vê-la repetir-se embora com outras roupagens e em contextos diferentes.

Caro amigo José Barata

A URAP ao tomar a iniciativa de o homenagear quer com este acto recordar, não só aqueles que viveram e morreram no inferno do Tarrafal mas, também, todos os que ao longo de 40 anos resistiram à ditadura de Salazar alguns com o sacrifício da própria vida.


Termino, expressando ao nosso querido amigo José Barata a nossa admiração pelo exemplo que deu de coragem na luta contra o fascismo e com os votos de que continue a gozar de boa saúde e a lucidez de espírito que mantém porque queremos contar consigo por muitos mais anos.