Intervenção de Marília Villaverde Cabral na Festa da URAP de abertura das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril


mariliavillaverdeBem-Vindos à Festa da URAP- União de Resistentes Antifascistas Portugueses!
Estamos a comemorar os 40 anos da Revolução de Abril!

Em primeiro lugar, em nome do Conselho Directivo da URAP, quero agradecer a vossa presença e, muito especialmente, permitam-me que agradeça aos artistas que, de forma solidária, nos honram com a sua presença:
À Farra-Fanfarra que acabaram de ver e ouvir e aos que vêm em seguida:
Francis Raposo Ferreira; Coro Juvenil da Universidade de Lisboa, dirigido por Erica Mandillo; Isa Fontes; Ensemble Concordis; André Levy e Samuel.

Queremos agradecer igualmente à Direcção da Escola Secundária de Camões, na pessoa do seu director, Engº. João Jaime Pires, pela cedência deste Auditório, bem como aos funcionários desta casa.
A URAP, com esta iniciativa e com a Exposição que, decerto, viram lá fora, inicia as comemorações do 40º. Aniversário do 25 de Abril.

Constituída oficialmente em 30 de Abril de 1976 por homens e mulheres que no fascismo criaram a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e, cujo papel, foi fundamental no apoio aos presos e suas famílias, a URAP tem consagrado grande parte da sua actividade no combate contra o branqueamento do fascismo, contra o esquecimento da luta pela democracia e a que tantos sacrificaram a sua liberdade e muitos a própria vida.

Os programas escolares pouco falam das prisões, do campo de concentração do Tarrafal, para onde foram enviados centenas de portugueses, entre eles, muitos jovens. Onde os próprios guardas diziam: para aqui, vem-se para morrer. Pouco falam nas torturas a que foram sujeitos todos aqueles que queriam viver num país livre e feliz. E, no entanto, todo esse tempo faz parte da nossa História e é importante que se saiba que no Portugal cinzento e triste, havia quem resistisse, quem não se conformasse com a falta da liberdade, com a miséria, com o obscurantismo, com as guerras coloniais.

Estamos a comemorar Abril e queremos dizer-vos que tudo faremos para que a nossa Exposição possa andar por todo o país e por todo o país, com a ajuda de muitos democratas e ex-presos políticos, chegar às Colectividades, às Escolas, junto de alunos e professores. Já muitos professores nos contactaram para, inclusive, organizarmos visitas guiadas ao Forte de Peniche. Peniche, cuja Câmara Municipal tem assinado um protocolo com a URAP, que muito nos honra.

Como nós, muitos professores sentem também a necessidade de que os seus alunos saibam o que foi, de facto, o 25 de Abril.
É importante falar de Abril. E falar de Abril é fácil e difícil.

Fácil, porque sabemos o que foi conquistado pela luta do Povo, em aliança com o Movimento das Forças Armadas:
grandes transformações no nosso país, com as nacionalizações de sectores básicos e estratégicos da economia, com a Reforma Agrária e com o apoio aos pequenos e médios agricultores, comerciantes e industriais.
Revolução que consagrou direitos dos trabalhadores: à greve, à contratação colectiva, à liberdade sindical, ao salário mínimo, ao subsídio de desemprego, aos subsídios de férias e de Natal.
Revolução que promoveu o direito à saúde, ao ensino, à generalização de reformas e pensões, aos direitos das mulheres e dos jovens.
Revolução que impulsionou a cultura, que promoveu a alfabetização.

Difícil, porque quem viveu esses tempos, não consegue transmitir com fidelidade, às novas gerações, a sensação de tanta felicidade! Foi, de facto, um tempo de uma imensa alegria. Nas ruas, os desconhecidos eram amigos, os amigos eram irmãos. Foi tempo de lágrimas, de abraços: aos que voltavam do exílio, aos que saiam das prisões. Em cada fábrica, em cada lado onde se lutava para se conseguir o que nos tinham tirado durante anos, ouvia-se o grito sempre presente "O Povo Unido jamais será vencido!".

Cantava-se a Grândola Vila Morena, mas mais e mais canções nasciam a todo o momento. Até o fado deixou de ser o que era e Ary dizia no seu Fado Alegre, " A hora, é de mandarmos a saudade e o choro embora e noutro fado desgarrarmos vida fora".
Mas os derrotados no 25 de Abril, conseguiram, pouco a pouco, com poderosas ajudas internas e externas, avançar na destruição do que o Povo tinha conquistado.

Chico Buarque, que no seu Brasil, dominado pela ditadura fascista, dedicou uma linda canção a Portugal e à nossa Revolução, cantou mais tarde "já murcharam a vossa festa pá". É verdade. Murcharam a Festa. Mas ele disse também uma coisa muito importante " certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim". Não foi uma, mas muitas sementes deitadas a esta terra que é nossa e num Abril mais próximo ou mais longínquo, hão-de florir, de novo, os cravos vermelhos, símbolo da vontade do nosso Povo.

VIVA O 25 DE ABRIL!
Marília Villaverde

 

15 de março de 2014

Auditório Camões, Lisboa