Intervenção de João Corregedor da Fonseca, no encerramento da AG da URAP

Intervenção de João Corregedor da Fonseca, no encerramento da Assembleia Geral da URAP, realizada a 28 de Março de 2015, em Lisboa

 

Amigos e amigas,

 

Vamos encerrar a assembleia geral que decorreu com grande vivacidade.
Julgo que podemos acreditar no futuro da urap, não obstante naturais dificuldades , uma vez que a nossa associação se apresenta com vigor, como demonstram os relatórios da direcção e dos núcleos que mantiveram, ao longo do ano, uma actividade assinalável e consoante os objectivos
que a todos nos movem.

 

A URAP, na minha opinião, não é apenas uma organização cívica, cultural, social e
política. É mais do que isso, é uma verdadeira instituição nacional, patriótica, que
urge preservar e reforçar, tendo em conta dois factores essenciais:

 

Primeiro, porque não se pode, nunca, esquecer o fascismo que se abateu
sobre o povo português, bem como não se pode olvidar a luta insana de milhares
de cidadãos contra o arbítrio, o obscurantismo, a prepotência, enfim, contra a
ditadura.

 

Segundo, porque 40 anos depois do derrube do regime fascista, a
democracia em Portugal corre sérios perigos com a agravante de se observar, amiúde e
a vários níveis, avançados tiques fasciszantes, como fica comprovado com a tentativa de
se erguer um museu evocativo do ditador Salazar, por decisão da direita
e do presidente da Câmara de Santa Comba Dão, em clara confrontação com a
Constituição da República.

 

A nossa Assembleia Geral realizou-se num momento em que existe um
intolerável e perigoso branqueamento do fascismo quando o que se impõe é a urgente
necessidade de se enveredar por uma verdadeira educação cívica dos jovens em que a componente da nossa história contemporânea ocupe um lugar de destaque. É criminoso optar-se pelo esquecimento de um período terrível, como se um país não tivesse sofrido, durante
meio século, as violências fascistas perpetradas por aquela ditadura que beneficiou do apoio
perverso de potências capitalistas internacionais.

 

Não se tem possibilitado aos estudantes, aos que já nasceram em democracia, o conhecimento
profundo das graves consequências criadas a Portugal desde o 28 de Maio
de 1926 até 25 de Abril de 1974.

 

Por isso, a URAP, apesar de condicionantes diversas, sem apoios oficiais, tem desempenhado um papel relevante no sentido de se impedir que desapareça da memória colectiva a verdadeira saga de milhares de resistentes submetidos, nas masmorras fascistas, a prisões arbitrárias, à tortura e, tantas vezes, sujeitos a assassinatos, apenas porque pugnavam pela implantação das liberdades cívicas, da democracia.

 

Mas a URAP também não desconhece que, na actualidade, tem de continuar
a exercer a sua acção vigilante na defesa da democracia, dos valores de Abril, da
Constituição, constantemente postos em causa pelo desrespeito do governo de direita, neoliberal, perante os inalienáveis direitos, liberdades e garantias constitucionais tão arduamente conquistados.

 

Não se pode regatear esforços na luta pelo cumprimento das normas constitucionais que garantem
a todos e, com maioria de razão aos mais desfavorecidos, vítimas da acção política de sucessivos governos, ao longo dos últimos 38 anos, governos submissos aos meios capitalistas nacionais e
internacionais.


Hoje, não estão assegurados os direitos ao trabalho, à saúde, ao ensino, à habitação, ao bem-estar social, a uma velhice tranquila. Pois bem, a URAP posiciona-se na primeira linha dos que não se cansam de exigir a mudança das políticas antidemocráticas adoptadas.

 

A ofensiva contra estes direitos está, desde há muito, em marcha de forma avassaladora numa lógica que também abrange outros países onde se assiste a idênticos comportamentos que facilitam a actuação de organizações e partidos de extrema direita e, mesmo, fascistas e de índole nazi, como acontece, na Grã-bretanha, em França, na Alemanha, na Ucrânia, além de outros.

 

A URAP tem dado provas que não se presta para fomentar manifestações ambíguas, demagógicas, populistas, como por vezes acontece. Não, a URAP tem um programa sério, coerente.
Tem como objectivo principal, claro e transparente, resistir contra o avanço da direita sem esquecera tarefa de, junto das populações, junto dos jovens, recordar sempre, e com verdade, a epopeia patriótica do povo trabalhador que sacrificadamente resistiu ao fascismo e o derrotou.

 

A URAP tem, por isso, razão em se manter. É uma instituição de paz.

 

E como a URAP tem razão vai prosseguir na sua acção, eivada de patriotismo, e relembrar os que,
por amor à pátria, à sua soberania e independência, nunca confundiram os seus interesses pessoais com os interesses da nação, numa luta que nos comove, nos emociona, e que a todos nos une.

 

E, amigos, neste momento ao recordar tais exemplos reproduzo, com respeito, uma frase lapidar,
que tem particular acuidade, proferida por outro grande combatente, o Dr. Álvaro Cunhal:
«Por amor ao nosso país aqui estamos. E essa a maior das razões. »

 

 

Lisboa, 28 de Março de 2015

 

João Corregedor da Fonseca