Intervenção de Marília Villaverde Cabral no 45º Aniversário do III Congresso da Oposição Democrática

Em nome do Conselho Directivo da URAP agradeço a vossa presença. Embora tivéssemos tentado enviar convites a todos os membros da Comissão Nacional do congresso, não nos foi possível por desconhecimento dos contactos.


Agradeço também a disponibilidade e apoio da Câmara Municipal de Aveiro, e da União de Freguesias de Glória e Vera Cruz, e a todos aqueles que, das mais diversas formas, contribuíram para o êxito desta Sessão e da Exposição que, a seguir, iremos visitar.
Saúdo o Núcleo da URAP de Aveiro por ter tomado em mãos esta bela Iniciativa.


De uma forma muito sentida, agradeço os depoimentos dos membros da Comissão Executiva do 3º. Congresso da Oposição Democrática, Drs. Flávio Sardo, Neto Brandão e António Regala, bem como a presença dos familiares dos companheiros que já não se encontram entre nós.


Estamos a comemorar o 45º. Aniversário do 3º. Congresso da Oposição Democrática, acontecimento maior na luta contra o fascismo e cujas repercussões já aqui foram lembradas por Jorge Sarabando e Vítor Dias.


Deste acontecimento, de que poderemos tirar muitos ensinamentos, destaca-se vivamente a sua grande dimensão unitária. Em unidade se lutou contra o fascismo, em unidade se lutou contra a guerra colonial, em unidade se lutou pela Liberdade.


Hoje, embora numa realidade diferente, precisamos muito da unidade de todos os democratas para que não esmoreça a consciência antifascista perante os enormes perigos com que o mundo está confrontado.


Vivemos uma situação internacional marcada por uma grande instabilidade e incerteza, com a acumulação de tensões e perigos de guerra em várias regiões do Mundo.


Na Europa, a crescente votação em 2017 em partidos nacionalistas, populistas (fascistas encapotados) e de extrema direita em países como a Áustria, França, Holanda, Alemanha, República Checa e, mais recentemente a Itália, é preocupante.


Tanto mais que, já em 2014 e 2015, a extrema-direita tinha ocupado lugares nos parlamentos de países como a Hungria, Suécia, Suíça, Grécia, Polónia, Dinamarca, Bélgica e Eslovénia.


Com diferenças e até contradições entre si, estas forças aproveitam-se do desgaste de partidos que têm estado no poder, nomeadamente sociais-democratas, que não resolveram os graves problemas dos seus países, antes os agravaram com o crescimento do desemprego e da pobreza, criando na maioria dos jovens a ideia de um futuro sem perspectivas e sem esperança.


É preocupante verificarmos que a extrema-direita tem hoje uma influência de que já não dispunha desde 1945, com a agravante de não existir a União Soviética cujo papel na derrota do nazi-fascismo é inapagável.


Entretanto, são de saudar os povos da América Latina que prosseguem a luta pela democracia ameaçada, os seus direitos e soberania, como é o caso da Argentina, Honduras, Colômbia, Venezuela e Brasil.


Brasil, onde se assiste à condenação à prisão de Lula da Silva com a recusa do Habeas Corpus interposto no Supremo Tribunal, na sequência de um verdadeiro golpe de Estado.


Em Cuba, continua a luta pelo fim do embargo económico, comercial e financeiro que se iniciou em Outubro de 1960 e que em várias Sessões da ONU foi rejeitado pela maioria dos países.


Também na Palestina, onde não são cumpridas as Resoluções da ONU, continua o massacre aquele povo que resiste e não desiste da luta pela sua pátria.


Portugal, nos seus quase 900 anos de história, precisa da unidade dos democratas e patriotas para defender a sua soberania e afirmar na Europa e no Mundo uma política de paz e cooperação, na qual se destaca o respeito pela Carta das Nações Unidas.
Vou agora falar-vos um pouco da actividade da URAP. Destacamos em 2015 as comemorações do fim da II Guerra Mundial em que, com a Tocha da Paz e da Liberdade da FIR – Federação Internacional de Resistentes, a que pertencemos, percorremos muitos pontos do país.


Pelos 80 anos da Guerra Civil de Espanha, lembrámos Guernica, o seu povo mártir, em várias sessões – que vamos continuar a realizar. A convite dos companheiros do País Basco, interviemos em Bruxelas, numa cerimónia no Parlamento Europeu.


Conseguimos, com a nossa luta e com a de todos os democratas que nos acompanharam, que o Forte de Peniche, símbolo da repressão, onde tanto se sofreu e onde tanto se lutou, não fosse transformado numa Pousada de luxo, mas sim num verdadeiro Museu da Liberdade e da Resistência. O livro sobre o Forte de
Peniche, sobre a sua história e com o nome de todos os presos, numa investigação feita pela URAP e pela Câmara Municipal de Peniche, vai na 3ª edição e tem sido apresentado em várias sessões por todo o país.


Pelo 25 de Abril, temos participado, e vamos continuar a participar, em sessões em escolas, com a colaboração de professores e de Câmaras Municipais. As manifestações populares são momentos altos em que apelamos à participação de todos os democratas, para que fique bem claro que o Povo Português não quer voltar ao passado dos tempos negros do fascismo.


Por considerarmos nosso dever não deixar esquecer os que lutaram por um Portugal melhor, uma delegação da URAP visitou o Tarrafal, em Abril de 2009, e interveio num Simpósio Internacional, em Cabo Verde. Visitou, na Ilha Terceira, os Fortes de S. João Baptista e S. Sebastião, "O Castelinho", locais de que se fala muito pouco e que, no entanto, foram lugares onde o fascismo prendeu e torturou valorosos democratas e resistentes que abnegadamente o combatiam.


Conseguimos o levantamento de todos os nomes dos presos que estiveram naqueles sinistros locais e, à semelhança do livro de Peniche, temos previsto, em conjunto com a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, com quem temos um Protocolo firmado,
apresentar, em Setembro, uma brochura que denuncie tudo o que ali se passou para que a memória não se apague.


A URAP, herdeira da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, tem lutado contra o branqueamento do fascismo e alertando para os perigos da demagogia e do populismo.


É preocupante a campanha diária contra os partidos políticos que, em última análise, transporta consigo não apenas o perigo do populismo, mas concepções e práticas fascizantes que não podem passar em claro.


É tarefa de todos os democratas dar combate a tais concepções e trazer para a intervenção política o interesse e a motivação genuína em responder aos problemas e anseios dos portugueses. Intervenção que tem na constituição da República Portuguesa, na Constituição de Abril, os elementos de referência e os instrumentos capazes de defender a liberdade, a democracia e o progresso social.


Numa sociedade como aquela em que vivemos, cujos principais órgãos de comunicação social estão tomados pelos grandes interesses económicos e em que quase não há espaço para as vozes que se apresentam fora do pensamento dominante, a URAP continuará a intervir contra o esquecimento dos homens e mulheres que,pelo seu amor à Liberdade e ao seu Povo perderam anos das suas vidas nas prisões e muitos a própria vida. Para além deste importante trabalho de combate à revisão da História, tem tido activa participação na luta pela democracia, pela solidariedade para com os povos e pela Paz, de que é exemplo a participação no "Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes" e a integração da Plataforma "Pela Paz e Desarmamento" e pelo fim das armas nucleares.


Tal como os membros dirigentes do III Congresso da Oposição Democrática, que aqui homenageamos, e que com coragem e determinação enfrentaram o fascismo, também nós hoje, em unidade, defenderemos a Liberdade e a Democracia conquistada e aprofundada pela Revolução de Abril.