Intervenção de Maríla Villaverde Cabral no lançamento do livro do MJT

Intervenção de Marília Villaverde Cabral, na sessão de lançamento do livro "MJT e luta dos jovens trabalhadores - Fios de Memória", dia 9 de Fevereiro de 2019, na Voz do Operário

 

 

Bem-vindos a esta sessão de apresentação do livro sobre o MJT – Movimento dos Jovens Trabalhadores – Fios da Memória.
Foi com grande satisfação e entusiasmo que o Conselho Directivo da URAP acolheu esta ideia: juntar os que fomos conseguindo contactar para o convívio na Casa do Alentejo, a 27 de Maio de 2017 e, a seguir, porque não editar um livro que retratasse a história deste movimento, das suas lutas, da sua coragem - um documento que não deixasse esquecer o papel desta geração tão jovem na luta da resistência contra o fascismo, contra a guerra colonial, pela liberdade, pela democracia, por um Portugal melhor?


E conseguimos. Com o trabalho de vários companheiros da URAP e com a ajuda solidária da Fundação Saramago que agradecemos na pessoa de José Sucena e da Voz do Operário, na pessoa do seu presidente, Manuel Figueiredo.
Não deixar esquecer movimentos que, como o MJT deram um contributo importante para a alvorada da Revolução de Abril, lembrar homens e mulheres que foram presos, torturados, deportados, pelo amor ao seu Povo e ao seu País, continuar a luta contra o branqueamento do fascismo, pela solidariedade para com os povos e pela Paz, é um dever que temos para com aqueles que fundaram a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos de que a URAP é herdeira.


Por isso, estivemos no campo da morte lenta, no Tarrafal, vimos o terrível local a que os presos chamaram "frigideira" e homenageamos todos os anos, junto ao seu Mausoléu, no Cemitério do Alto de S. João, os que "na longa noite do fascismo, foram portadores da chama da Liberdade..."


Da ex-sede da Pide no Porto, conseguimos criar um projecto museológico que lembra que ali foram encarcerados mais de 7.000 antifascistas.


Assinalámos, em Angra do Heroísmo, as duas Fortalezas, S. João Baptista e S. Sebastião, com os lugares malditos para os presos: a Poterna e o Calejão, locais tão terríveis, que até são difíceis de descrever.

Em colaboração com a Câmara Municipal, vamos lançar um livro sobre estas prisões que muita gente, mesmo democratas, desconhecem que existiram e onde os presos se encontravam no mais profundo isolamento.


Em Aveiro, evocámos o II e o III Congressos da Oposição Democrática, ainda felizmente com membros das Comissões Executivas dos seus Conselhos Nacionais, lembrando a unidade conseguida e o papel que tiveram, nomeadamente o III Congresso, para que Abril acontecesse.


Com a Tocha da Paz e da Liberdade, da Federação Internacional de Resistentes, com sede em Berlim e de que fazemos parte, percorremos o País nos 70 anos do fim da II Guerra Mundial.


Lembrámos Guernica e o seu Povo mártir pelos 80 anos dos bombardeamentos fascistas.


Organizámos com a FIR e a Organização dos Veteranos da Bélgica visitas de jovens ao Campo de Concentração de Auschwitz - chamada Combóio dos Mil.


Participámos em encontros internacionais em Itália e em Bruxelas, no Parlamento Europeu, de troca de experiência na luta contra o fascismo e o ascenso da extrema-direita na Europa.


Com ex presos políticos e outros democratas travámos e vencemos a luta para que o Forte de Peniche não fosse transformado numa pousada de luxo, mas num verdadeiro Museu Nacional da Liberdade e da Resistência. Com o livro que editámos e já vai na 4ª. Edição, a URAP tem percorrido o país, em escolas, colectividades e outras instituições com sessões, aproveitando também para dar a conhecer a actividade da URAP.

 

Dia 27 de Abril, data que comemora a libertação dos presos do Forte de Peniche, vai ser inaugurada a primeira fase do Museu da Liberdade e Resistência, bem como o Memorial com o nome dos presos políticos, reivindicação antiga da URAP.
Queremos que seja uma grande manifestação de massas para que fique bem demonstrada a satisfação por esta conquista e que não permitiremos que se volte para trás.


Havia quem pensasse que a URAP era uma organização só para os que resistiram durante o fascismo, para os mais idosos, mas não corresponde à verdade. A URAP é para todos os antifascistas, todos os que lutaram e os que lutam hoje para que o fascismo não volte mais à nossa terra. Era assim que a caracterizavam os seus fundadores, vários que tinham estado no Tarrafal e noutras prisões e que, pela sua longa experiência da vida e de luta, acharam por bem que a URAP fazia falta ao Portugal, mesmo liberto do fascismo. Porque sabiam que os fascistas não desapareceram, que encontrando terreno favorável, deitam as suas garras de fora.


Sentindo-se animados com o ascenso de partidos fascistas na Europa, no Brasil e infelizmente em muitas partes do Mundo e aproveitando-se do descontentamento popular, começam a tentar também aqui a levantar cabelo: os coletes amarelos, o anúncio da inauguração em 2019 de um Museu Salazar e outro do Estado Novo em Santa Comba que, a concretizar-se poderiam transformar-se em locais de culto e de romagem de neonazis nacionais e estrangeiros. A convocação de uma manifestação de louvor a Salazar no dia 1 de Fevereiro, a vergonhosa aparição num programa da TVI de um criminoso nazi, são factos que exigem da nossa parte uma grande vigilância, mas tendo o cuidado de não cair em provocações e estar prontos a desmistificar as mentiras com que somos bombardeados diariamente pela comunicação social.


A URAP tem tomado posição sobre estes factos, alertando as mais altas entidades do Estado e exigindo o cumprimento da Constituição da República Portuguesa, sendo para nós muito claro, que é com a nossa luta do dia-a-dia, com as sessões nas escolas pelos 45 anos do 25 de Abril que já estamos a programar – e que aproveito para apelar à participação de todos na manifestação popular e nas iniciativas comemorativas, para que este 25 de Abril, seja um grande 25 de Abril - também com as sessões que percorremos por todo o país, divulgando o que foi o fascismo, editando livros como o de Peniche, o das prisões de Angra do Heroísmo, este sobre o MJT que fala da vossa luta e que queremos, com ele, contar às novas gerações a luta dos jovens de ontem que abriram caminho para que os jovens de hoje, pudessem viver em liberdade.


Vivemos tempos conturbados, é certo, em que o fascismo, em muitas partes do Mundo, levanta cabeça, e em que os Estados Unidos e a União Europeia se juntam numa ofensiva contra os direitos dos povos e a sua soberania, como é o caso da Venezuela, mas também há muita força, muita vontade dos que amam a liberdade e querem o bem para os seus povos.
Esta geração de resistentes que hoje temos aqui, porque conheceu e sentiu na pele o que foi o fascismo em Portugal, lutará, decerto, contra o fascismo, pela Paz e pela solidariedade para com os Povos de todo o Mundo e isso dá-nos uma grande confiança no futuro.


Contamos convosco!

Lisboa, 09 de Fevereiro de 2019