Intervenção de Marília Villaverde Cabral no XVIII Congresso da FIR

Intervenção de Marília Villaverde Cabral no XVIII Congresso da FIR
29 Nov. a 1 Dez. 2019, Reggio Emilia, Itália

 

Queridos Delegados, queridos Convidados,


Trago-vos as mais calorosas saudações de Portugal, dos nossos companheiros da URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses.


Passados estes dois anos, vemos com grande apreensão a situação que se vive no Mundo com os Povos sujeitos a uma brutal ofensiva exploradora, opressora e agressiva do grande capital. É o que vemos na Bolívia, com o descarado golpe de Estado, num país que viu diminuir a fome, a miséria e erradicar o analfabetismo tal como no Brasil, onde os ricos não querem ver, nem um pouco, diminuir os seus privilégios. Na Europa, a situação é também preocupante com a subida de votos de partidos fascistas, como é o caso recente do Vox, em Espanha.


Reproduzimos e saudámos a posição indignada da FIR sobre a resolução da União Europeia que iguala o fascismo ao comunismo, em vez de realçar o heroico papel da União Soviética na derrota de Hitler e seus aliados, nos milhões de mortos que sofreram nesta guerra.


Em Portugal, depois dos quatro anos desta Legislatura, em que o povo viu repostos muitos dos direitos que lhe tinham sido roubados, com a estrondosa derrota da coligação de direita e com a luta e a persistência das forças democráticas mais consequentes.


Mas apesar dos vários direitos repostos e até de outras conquistas, como a diminuição dos custos dos passes sociais dos transportes, a distribuição gratuita de livros escolares, o aumento das reformas, entre outras, a luta tem de continuar pelo aumento dos salários que, em comparação com os de outros países da Europa são incomensuravelmente mais baixos. Pela eliminação do trabalho precário, pela legislação laboral de que o patronato faz finca pé e que o Governo, subserviente às directrizes da União Europeia não tem recuado. Para nós é muito claro que, tal como noutras ocasiões, mesmo mais recentes, é a luta que vai obrigar a vergar estes interesses.


A URAP, nesta situação tumultuosa do Mundo, tem estado ao lado das forças da Paz e tem participado em várias iniciativas de solidariedade para com os povos que corajosamente se batem pela liberdade e pela independência dos seus países.


Também em Portugal, com pés de lã, neofascistas vão levantando cabeça, como aconteceu com uma reunião internacional, organizada por um partido de extrema direita e outra, secreta e em que terá estado o primeiro ministro húngaro. É preocupante, tanto mais que o branqueamento do fascismo vai continuando o seu caminho, tendo aparecido, de novo, a ideia peregrina do Museu Salazar, na terra onde ele nasceu. Temos travado uma grande luta contra este projecto, o que já obrigou a Câmara de Santa Comba Dão a seguir outro caminho e, em conjunto com outras estruturas, em vez de lhe chamarem Museu Salazar, puseram-lhe o nome de Centro Interpretativo do Estado Novo, o que vai dar no mesmo, porque é na mesma terra e na cantina escolar, que ainda tem o seu nome. O conteúdo não será mais do que o espólio do ditador, composto por objectos pessoais.


Para quem queira pesquisar e estudar o que muitos chamam Estado Novo, é na Torre do Tombo, Arquivo Nacional, onde se encontram documentos desse período histórico. É nossa convicção que em vez de um centro de estudo, esse local, será um local de romaria de saudosistas do passado e de culto a essa figura sinistra que prendeu, torturou e matou homens e mulheres amantes da liberdade.


Felizmente, muitos democratas nos têm acompanhado contra este projecto e, inclusivé em vários jornais, têm aparecido artigos de opinião sobre este assunto. 345 Ex presos políticos, indignados, escreveram uma carta aberta ao Primeiro Ministro, que foi seguido de um abaixo assinado de democratas de vários quadrantes políticos com 18.000 assinaturas. Agora, a URAP está a levar a cabo uma Petição Pública para ser apresentada à Assembleia da República para que, à semelhança de 2007, ano em que surgiu essa ideia, possa ser condenada esta pretensão. Claro que nesta Legislatura a composição da Assembleia é diferente: menos 5 comunistas e mais dois da extrema direita, mas as forças da democracia ainda são superiores às da direita.


Apesar das dificuldades, a luta pelo Museu do Forte de Peniche, em vez de uma Pousada de luxo, trouxe à URAP prestígio, mas também uma maior responsabilidade. A primeira fase do Museu foi inaugurada no 25 de Abril, com intervenções de Domingos Abrantes, a representar os presos políticos e do Primeiro Ministro, António Costa. Dois dias depois, dia 27 de Abril, mais de 4.000 antifascistas, vindos de todo o país, percorreram as ruas da cidade de Peniche com os seus panos e as suas palavras de ordem, tendo terminado a Iniciativa com um bonito espectáculo e com intervenções de Domingos Abrantes e da Ministra da Cultura, Graça Fonseca. O livro sobre Peniche, a sua história e luta, da edição da URAP, já vai na 5ª. Edição e a sua apresentação, por todo o país, a que chamamos Roteiro Antifascista tem trazido mais sócios e fortalecido os núcleos.

Não esquecemos os nossos mártires e heróis e mantemos anualmente a Romagem ao Mausoléu dos que, a maior parte deles muito jovens, morreram no Campo de Concentração do Tarrafal.


O 25 de Abril é sempre um momento alto para contactarmos a juventude e este ano foi particularmente rico, pois fizemos mais de 50 sessões em escolas e falámos com mais de 5000 alunos.


Neste momento, estamos a trabalhar para a realização de uma homenagem a todas as mulheres que foram presas, cuja pesquisa efectuada já se eleva a mais de 6.000. É nossa intenção editar um livro em que se descreva a situação a que estavam sujeitas nas prisões e as torturas e humilhações que sofreram.


Continuamos a trabalhar no livro sobre as masmorras de Angra do Heroísmo, nos Açores, depois de já as termos visitado por mais de uma vez.


A sede da Pide na cidade do Porto, onde estiveram presos milhares de democratas, depois do protocolo firmado com o Ministério do Exército, o núcleo da URAP tem organizado iniciativas várias e há uma verdadeira possibilidade de ser criado ali um Museu, símbolo da repressão e da resistência.


Estes são alguns dos trabalhos que temos em mãos e dos quais vos queríamos informar.


Temos a convicção do muito que há a fazer, mas também temos a convicção que não estamos sós nesta luta e, por isso, consideramos tão importante estarmos hoje aqui, trocando informações e experiências. O fascismo não morreu. Sempre que as forças do grande capital necessitam, servem-se dele para os seus fins. A Bolívia, o Chile, o Brasil, a Venezuela, a Palestina e tantas outras partes do Mundo são disso exemplo, mas o povo luta com grande coragem e determinação, o que nos dá força, coragem e confiança no futuro.