Aproveito este momento para vos agradecer o terem respondido positivamente ao apelo da URAP para participar nesta viagem que é também um contributo para divulgarmos locais que muitos portugueses desconhecem que existiram, como locais onde se viveu grande sofrimento, mas também muita coragem.


A Direcção da URAP não pode esquecer a forma como fomos recebidos, há três anos, pela autarquia de Angra do Heroísmo, que mais uma vez agradecemos, na pessoa do senhor presidente da Câmara Municipal, engenheiro Álamo de Menezes, que tanto se empenhou para que inaugurássemos, a 17 de Setembro de 2015, num local, a caminho do Forte de S. João Baptista, uma lápide, em que homenageámos as muitas centenas de antifascistas que, neste lugar, símbolo da repressão fascista, foram submetidos a um regime prisional brutal.


E agora, senhor presidente voltámos, mas mais enriquecidos com o levantamento dos nomes de todos os antifascistas presos nos Fortes de S. João Baptista e de S. Sebastião (o Castelinho), facto que agradecemos à nossa companheira Celestina Leão, aqui presente. Não conheceríamos que o Castelinho tivesse sido uma prisão, se não fôssemos alertados e lido o livro da historiadora Maria João Raminhos Duarte, "Presos Políticos Algarvios". No seu livro, a historiadora, entre outros, dá-nos o trágico testemunho de António Estrela: "Foram quase nove anos que passei no inferno de Angra do Heroísmo e os últimos foram de completo isolamento. Ninguém se importou connosco, à parte os nossos familiares. Ficámos entregues a nós próprios." Teremos oportunidade de conhecer outros depoimentos quando tivermos realizado o grande objectivo de publicar o livro sobre estas terríveis prisões que, generosamente, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo vai apoiar. Mas, para além de António Estrela, mais antifascistas estiveram presos no Forte de S. Sebastião. Entre eles, esteve também o Dr. Ludgero Pinto Basto, cujos filhos, Eugénio e Ludgero, sua nora Graça, e sua neta Selma quiseram vir connosco, também como forma de homenagear e de lembrar um homem que, durante toda a sua vida, nunca desistiu de lutar pelos seus ideais. O seu filho Ernâni, se vivesse, aqui estaria também nesta singela homenagem. Não esqueceremos este nosso amigo e companheiro das lutas da URAP.


Tínhamos planeado ter hoje aqui o livro sobre os Fortes de S. João Baptista e S. Sebastião, o Castelinho. Infelizmente, por motivo de saúde de um familiar do nosso dirigente e historiador José Manuel Vargas, que está com esta tarefa, não nos é possível apresenta-lo hoje, mas iremos tê-lo em breve.


A ideia da edição de um livro surge após a visita da delegação da URAP, que já referi. Ao vermos nas paredes, nomes que os próprios presos inscreveram, ao visitarmos aqueles locais terríveis como a Poterna e o Calejão, onde encerravam os presos que consideravam de castigo, ao lermos depoimentos como de António Estrela, decidimos que era nosso dever não consentir que fossem esquecidos estes factos que fazem parte da História Contemporânea do nosso país.


Uma das nossas lutas é lembrar, é dar a conhecer inclusive nas escolas, que a liberdade não nos caiu do céu, que houve muita gente que entregou a sua existência e muitos as próprias vidas por um Portugal melhor. Que houve jovens que foram arrancados às suas famílias, às suas terras, para serem desterrados para Angra, muitos deles a caminho do Tarrafal, entre eles, Bento Gonçalves, Sérgio Vilarigues, Mário Castelhano.


Como não tínhamos o livro, pedi ao José Manuel Vargas para escrever um pequeno texto sobre a forma como o está a organizar.


Vou então passar a ler:


As prisões políticas de Angra do Heroísmo


O trabalho que a URAP está a elaborar sobre as prisões políticas de Angra do Heroísmo, já em fase adiantada, incluirá, além de uma Apresentação e Introdução iniciais, vários capítulos em que serão desenvolvidos os aspectos mais significativos da história dos presídios da Fortaleza de S. João Baptista e do Forte de S. Sebastião /Castelinho, procurando assim contribuir para preservar a memória desses espaços e da sua importância no contexto repressivo da Ditadura Militar e do chamado Estado Novo.


Os aspectos a abordar são os seguintes:


- Notícia histórica dos dois fortes, desde a sua construção no século XVII, enquanto fortalezas militares, mas também com exemplos da sua utilização como prisões político militares, por ex. cativeiro do rei D. Afonso VI, prisão de Gungunhana, prisioneiros alemães durante a Primeira Guerra Mundial.


- A deportação nos Açores e as prisões políticas de Angra durante a Ditadura Militar (1926-1933) e no período dito do Estado Novo, desde 1933 até à desactivação destas prisões em 1943.


- O quotidiano dos prisioneiros políticos, a sua organização comunitária, a repressão, descrições do Calejão, da Poterna e das Furnas, as tentativas de fuga, os carcereiros, episódios do dia-a-dia, a luta para quebrar o isolamento.


- Lista o mais completa possível, elaborada com base nas fontes impressas e de arquivo disponíveis, abrangendo mais de cinco centenas de presos, com indicação das profissões, naturalidade e data da prisão. Referência particular aos presos naturais dos Açores (estão identificados 40) e ainda 2 mulheres, por serem suspeitas de entregarem aos presos correspondência clandestina e algumas notas biográficas resumidas de presos cuja estada em Angra justifica particular destaque.


E será assim, o nosso livro. Espero que tenham achado com interesse. Mesmo com falhas inevitáveis, tendo em conta as dificuldades na investigação, será, de certo, um contributo para a preservação da memória e um tributo aos que, na noite longa do fascismo, não desistiram de acreditar que a liberdade era possível.

 

Angra do Heroísmo, 1 de Outubro de 2018

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Caros Amigos,


Agradeço a vossa presença: a dos companheiros de Peniche e a dos outros amigos da região de Lisboa e Setúbal que se quiseram associar a esta iniciativa. Agradeço também a presença do senhor presidente da Câmara Municipal, do senhor presidente da Assembleia Municipal e da senhora presidente da Junta de Freguesia.


Esta iniciativa hoje é dedicada ao Povo de Peniche, a Peniche que não era só um símbolo da falta de liberdade e da repressão fascista, mas a Peniche do povo solidário que ajudou famílias de presos, que fingiu não ver fugas quando os prisioneiros saltavam as amuradas. A Peniche das lutas de pescadores, a Peniche que com a sua beleza cativa quem a visita.


O sonho de criar um museu para que a memória não se apague - um museu que contenha depoimentos de presos, documentação para ser consultada por jovens estudantes que se interessem pela nossa História Contemporânea, um museu que seja também uma homenagem aos que lutaram contra o fascismo, perdendo a sua liberdade e muitos as próprias vidas -, esse sonho está a concretizar-se! Valeu a pena a luta dos democratas. E hoje podemos dizer que este Museu Nacional e a Fortaleza que o envolve vão ser devolvidos ao Povo de Peniche.


Estamos certos que a partir da sua inauguração, Peniche, com o Museu, será visitada por muitos milhares de pessoas, quer a nível nacional, quer a nível internacional. O Povo de Peniche pode contar com a URAP para através das associações congéneres estrangeiras, através de escolas, de outras organizações nacionais, tudo fará para dar a conhecer este importante testemunho da Resistência e da Liberdade.


Esta Iniciativa será também um incentivo ao desenvolvimento do trabalho da URAP em Peniche. Herdeira da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, a URAP tem desenvolvido a sua actividade no combate contra o esquecimento do que foi o fascismo.
Temos a convicção que a URAP é necessária. Porque o combate ao perigo do fascismo, com velhas e novas características, exige que não se ignorem as lições da História.


A demagogia fascista de hoje é muito semelhante à do passado. Dando a ideia de ser contra a grande finança e a corrupção, tem conseguido ganhar os descontentes com as políticas vigentes contra imigrantes e refugiados, trabalhadores sindicalizados e comunistas. Veja-se o caso recente do Brasil. O ódio que conseguiram incutir em tantos milhões de pessoas. Muitos deles trabalhadores.


Precisamos muito da unidade de todos os democratas para que não esmoreça a consciência antifascista perante os enormes perigos com que o mundo está confrontado.


Vivemos uma situação internacional marcada por uma grande instabilidade e incerteza, com a acumulação de tensões e perigos de guerra em várias regiões do Mundo.


Na Europa, as eleições dos últimos anos foram ganhas por partidos nacionalistas, populistas e de extrema direita, mas já em 2014 e 2015, a extrema direita tinha ocupado lugares nos parlamentos de vários países.


Com diferenças e até contradições entre si, estas forças aproveitam-se do desgaste de partidos que têm estado no poder, nomeadamente sociais-democratas, que não resolveram os graves problemas dos seus países, antes os agravaram com o crescimento do desemprego e da pobreza, criando na maioria dos jovens a ideia de um futuro sem perspectivas e sem esperança.
Entretanto, são de saudar os povos da América Latina que prosseguem a luta pela democracia ameaçada, os seus direitos e soberania, como é o caso da Argentina, Honduras, Colômbia, Venezuela.


Em Cuba, continua a luta pelo fim do embargo económico, comercial e financeiro que se iniciou em Outubro de 1960 e que em várias Sessões da ONU foi rejeitado pela maioria dos países.


No Brasil, onde se assistiu ao afastamento da presidente Dilma, a toda a encenação na condenação de Lula da Silva com a recusa do Habeas Corpus interposto no Supremo Tribunal, na sequência de um verdadeiro golpe de Estado.
O candidato fascista ganhou as eleições, mas muitos milhões de brasileiros bateram-se e continuam a bater-se pela liberdade, pelos direitos humanos, por um Brasil melhor.


Também na Palestina, onde não são cumpridas as Resoluções da ONU, continua o massacre àquele Povo que resiste e não desiste da luta pela sua pátria.


E nós, em Portugal, com os seus quase 900 anos de História, precisamos da unidade dos democratas e patriotas para defendermos a soberania nacional e afirmar na Europa e no Mundo uma política de paz e cooperação, na qual se destaca o respeito pela Carta das Nações Unidas.

 

Numa sociedade como aquela em que vivemos, cujos principais órgãos de comunicação social estão tomados pelos grandes interesses económicos e em que quase não há espaço para as vozes que se apresentam fora do pensamento dominante, a URAP continuará a intervir contra o esquecimento dos homens e mulheres que, pelo seu amor à liberdade e ao seu povo, perderam anos das suas vidas nas prisões e muitos a própria vida. Para além deste importante trabalho de combate à revisão da História, tem tido activa participação na luta pela democracia, pela solidariedade para com os povos e pela Paz, de que é exemplo a participação no Encontro pela Paz, em 20 de Outubro, no Pavilhão Paz e Amizade, em Loures, onde estiveram mais de 700 pessoas, mas a comunicação social não apareceu.
Porque muitos amigos talvez desconheçam, tentarei destacar algumas das iniciativas recentes mais marcantes da actividade da URAP:
Em 2015, comemorámos o fim da II Guerra Mundial, percorrendo muitos pontos do país com a Tocha da Paz e da Liberdade da FIR – Federação Internacional de Resistentes, organização a que pertencemos.


Pelos 80 anos da Guerra Civil de Espanha, lembrámos Guernica e o seu povo mártir em várias sessões. A convite dos companheiros do País Basco, interviemos em Bruxelas, numa cerimónia no Parlamento Europeu.


Conseguimos, como bem sabem, com a nossa luta e com a de todos os democratas que nos acompanharam, que o Forte de Peniche, símbolo da repressão, onde tanto se resistiu, não fosse transformado numa pousada de luxo, mas sim num verdadeiro Museu da Liberdade e da Resistência. Temos apresentado em várias sessões por todo o país o livro sobre o Forte de Peniche, que relata a sua história e incluí um número significativo de nomes de presos, numa investigação feita pela URAP e pela Câmara Municipal de Peniche, e que vai na 4ª edição, que hoje vos trazemos em primeira mão.


Pelo 25 de Abril, temos participado, e vamos continuar a participar, em sessões em escolas, com a colaboração de professores e de Câmaras Municipais. As manifestações populares são momentos altos em que apelamos à participação de todos os democratas, para que fique bem claro que o Povo Português não quer voltar ao passado dos tempos negros do fascismo.


Por considerarmos nosso dever não deixar esquecer o Tarrafal, uma delegação da URAP visitou o Campo de Concentração, em Abril de 2009, e interveio, na ocasião, num Simpósio Internacional, em Cabo Verde.


Visitou, em 2014, na Ilha Terceira, os Fortes de S. João Baptista e S. Sebastião, "O Castelinho", locais de que se fala muito pouco e que, no entanto, foram lugares onde o fascismo prendeu e torturou valorosos democratas e resistentes que abnegadamente o combatiam.


Estamos a trabalhar para o levantamento de todos os nomes dos presos que estiveram naqueles sinistros locais e, à semelhança do livro de Peniche, temos prevista a edição de um livro, em conjunto com a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, com quem temos um protocolo firmado.


Em 1 de Outubro deste ano, 40 sócios e amigos da URAP vindos do continente participaram, no salão nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, com a presença do presidente e outras personalidades da Região, numa sessão de apresentação do que se projecta para o livro.


Esta delegação da URAP visitou o Forte de S. João Baptista e teve ocasião de ver os locais dos castigos dos presos - a poterna e o calejão -, lugares terríveis, difíceis de descrever. Esteve também no Forte de S. Sebastião, onde os presos sofreram o maior dos isolamentos. Neste local, onde hoje existe uma pousada, nada assinala que ali estiveram homens que lutaram pelo seu povo e o seu país. Mas à semelhança da placa que destaca a passagem da URAP pelo Forte de S. João Baptista, tivemos a promessa do presidente da Câmara de Angra do Heroísmo que seria colocada também uma placa a assinalar que, durante o fascismo, ali se sofreu, ali se lutou.


Amigos,


Para terminar, saúdo, mais uma vez, o povo de Peniche pela sua solidariedade e faço votos para que esta iniciativa reforce, de facto, o nosso trabalho da URAP.

 

Peniche, 3 de Novembro de 2018

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