Intervenção de Encerramento da Assembleia de 24 de Março de 2018
Marília Villaverde Cabral

 

Queridos Amigos,


Estamos quase a encerrar a Assembleia e acho que podemos dizer que foi uma boa reunião, que ficámos a conhecer melhor a actividade da URAP, dos seus Núcleos e os seus projectos.


Antes do nosso Presidente encerrar a Assembleia, deixo-vos aqui algumas poucas palavras sobre a situação nacional e internacional.
A situação internacional é marcada por uma grande instabilidade e incerteza, com a acumulação de tensões e perigos de guerra em várias regiões do Mundo.


Na Europa, a crescente votação em 2017 em partidos nacionalistas, populistas (fascistas encapotados) e abertamente fascistas em países como a Áustria, França, Holanda, Alemanha, República Checa e, mais recentemente a Itália, é preocupante.


Tanto mais que, já em 2014 e 2015, a extrema-direita tinha ocupado lugares nos parlamentos de países como a Hungria, a Suécia, Suíça, Grécia, Polónia, Dinamarca, Bélgica e Eslovénia.


Com diferenças e até contradições entre si, estas forças aproveitam-se do desgaste de partidos que têm estado no poder, nomeadamente sociais-democratas, que não resolveram os graves problemas dos seus países, antes os agravaram com o crescimento do desemprego e da pobreza, criando na maioria dos jovens a ideia de um futuro sem perspectivas e sem esperança.


É preocupante verificarmos que a extrema-direita tem hoje uma influência de que já não dispunha desde 1945, com a agravante de não existir a União Soviética e o movimento operário organizado estar a viver um período de grande refluxo.


Entretanto, são de saudar os povos da América Latina que prosseguem a luta pela democracia ameaçada, os seus direitos e soberania, como é o caso da Argentina, Honduras, Colômbia, Brasil e Venezuela.


Em Cuba, continua a luta pelo fim do embargo económico, comercial e financeiro que se iniciou em Outubro de 1960.


Sobre todas estas questões da situação internacional e, nomeadamente, o ascenso do fascismo, chamo a vossa atenção para o artigo do nosso companheiro Vargas que irá sair no próximo Boletim.


Quanto ao nosso País, embora tenhamos dado, nos últimos tempos, passos positivos, são preocupantes as situações que dizem respeito às Leis do Trabalho, à precariedade, ao público-privado na saúde e noutros sectores, ao desmantelamento e destruição dos correios e de outras empresas. As amarras à União Europeia e às suas directrizes são um travão ao nosso desenvolvimento. Não está a ser fácil o rompimento com a política de direita que tanto tem prejudicado os nossos interesses como País soberano. Só a luta, o seu desenvolvimento, conseguirá travar estar política de submissão aos grandes interesses instalados.


Apesar das dificuldades, dos recuos, dos perigos, lembrando Aurélio Santos, que nos deixou este ano, dizemos como ele: Confiamos na força dos trabalhadores, nos povos, na pessoa humana, no crescimento da consciência de que a humanidade precisa de paz e de um desenvolvimento mais harmonioso, mais justo e mais humano, em todo o planeta.

 

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Intervenção de Marília Villaverde Cabral, Coordenadora do Conselho Directivo da URAP, na Homenagem aos Tarrafalistas
realizada 10 de Março de 2018 no Alto de São João


Caros Amigos,


Estamos de novo, aqui este ano, para homenagear os homens que se bateram, com grande coragem, pela Liberdade e por um Portugal melhor.


Com esta Homenagem, não estamos a cumprir uma data de calendário ou uma rotina anual. Estamos aqui, porque sentimos que é nosso dever. Estamos aqui, porque não queremos que se esqueça o horror fascista, as torturas e as mortes, como pretendem aqueles que tudo fazem para branquear o fascismo.


Estamos aqui, para demonstrar que o sacrifício dos homens que sofreram no Campo de Concentração do Tarrafal, não foi em vão. Estamos aqui, para afirmar que lutaremos com todas as nossas forças, para que o fascismo não volte mais à nossa terra. E também porque não esquecemos o apelo que nos fez o grande combatente Francisco Miguel, o último preso português a sair do campo de concentração do Tarrafal, que no livro de depoimentos "Fascismo Nunca Mais", nos diz: "Antifascista, Democrata, Homem Progressista, quando pensares nos direitos da pessoa humana, não esqueças o Tarrafal. Se queres defender a liberdade, construir e consolidar a verdadeira democracia, faz alguma coisa para que o fascismo não possa voltar mais à terra portuguesa."

 

Vivia-se o ano de 1936. Em Espanha, irrompia a Guerra Civil. Enquanto a aviação militar da Alemanha e de Itália se preparava para bombardear populações indefesas, como Guernica, em Portugal, Salazar enviava a Franco mantimentos, enquanto o povo português vivia a fome mais negra. Marinheiros dos navios Dão, Bartolomeu Dias e Afonso de Albuquerque lutavam por melhores condições de trabalho e, solidários com os republicanos de Espanha, recusavam-se a desembarcar em portos franquistas. Considerados perigosos revoltosos, foram presos e expulsos da Armada. Mas os marinheiros não ficaram parados e levantaram-se contra aquelas prisões e expulsões da Marinha de Guerra. A revolta foi sufocada de uma forma violentíssima: bombardearam os navios, prenderam os revoltosos e condenaram-nos a pesadas penas. Este movimento, dirigido pela ORA – Organização Revolucionária da Armada assustou Salazar que, praticamente, de imediato, mandou abrir um campo de concentração, inspirado nos campos de concentração nazis, na ilha de Santiago – campo de concentração do Tarrafal - também conhecido por campo da morte lenta e onde Salazar pretendia assassinar os resistentes mais combativos, longe das suas famílias, das suas terras e da opinião pública.


A maioria eram jovens, na força da vida, amavam o seu país e o seu povo, mas em vez da felicidade a que tinham direito, foram lançados para um campo de paludismo e de morte!


O campo era um rectângulo de uns duzentos por trezentos passos, circundado por uma vedação de arame farpado e de toros de madeira.

 

Os ventos traziam os cheiros imundos, empestando a atmosfera e espalhando o mosquedo.
Todos estes elementos fazem parte da nossa História. Mas esta parte da História de Portugal é ocultada e os nossos jovens não a vão ler nos compêndios escolares e, se não formos nós, antifascistas, não ficarão a saber que, em Portugal, houve sempre, através dos tempos, uma juventude que lutou, que sacrificou a sus liberdade e até a sua vida, por ideais de justiça, de liberdade e de Paz. Por isso, é tão importante a nossa vinda aqui. É um modesto contributo para lembrar os crimes que foram cometidos nesse terrível local, onde se ia para morrer. O campo de concentração do Tarrafal durou 18 anos. O seu encerramento deveu-se à denúncia e solidariedade nacional e internacional que os democratas levaram a cabo.


Mas não podemos esquecer que, anos mais tarde, o campo foi reaberto como prisão, para os patriotas das guerras coloniais.


Continuamos, por isso, a considerar de grande importância a construção de um Memorial Internacional, conforme foi proposto no Simpósio em Cabo Verde em 1 de Maio de 2009, onde a URAP esteve presente, com uma delegação de 40 antifascistas.


Queridos Amigos,


Vale a pena recordar as palavras de coragem e de esperança que estes nossos heróis nos deixaram:
"Cercaram-nos de arame farpado, de mar, de muitas muralhas de isolamento e todas elas derrubámos. As que construímos com a nossa firmeza, a nossa convicção, essas não as demoliram os carcereiros. E os vencedores fomos nós".


Ao terminarmos esta jornada, recordo as palavras do nosso querido companheiro Aurélio Santos, que tanta falta nos faz:

"a luta antifascista mantém-se como necessidade actual. Há quem diga que o fascismo já passou à História.
Só uma grave ou leviana incompreensão da História pode levar â convicção de que a derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, pôs em definitivo o mundo ao abrigo de regimes autoritários e ditatoriais que restabeleçam os métodos e as políticas que o fascismo quis impor ao mundo na sua versão do século xx."


As suas palavras não poderiam ser mais verdadeiras. O Mundo está mergulhado em guerra. Fascistas, populistas, levantam cabeça e chegam a ser homenageados em Instâncias nacionais e internacionais.


Queridos Amigos,


A URAP tudo fará para continuar na luta contra o branqueamento do fascismo e realizar sessões, nomeadamente em escolas, para que as gerações futuras conheçam o que foi o fascismo e o que foi a resistência.


A luta pela Paz e pela Solidariedade aos Povos é urgente!


VIVA O 25 DE ABRIL


25 DE ABRIL SEMPRE! FASCISMO NUNCA MAIS!

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À família e aos amigos de

Alexandre Castanheira

 

Estimados familiares e amigos,

 

A URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses acaba de tomar conhecimento do falecimento de um dos seus primeiros sócios, seu antigo dirigente e, durante alguns anos, Coordenador do seu Conselho Directivo, o estimado companheiro Alexandre Castanheira.

 

Tristes com a notícia e solidários com seus familiares e amigos a todos nos juntamos, neste dia e hora, no sentimento comum de dor e da perda, ao ver partir do nosso convívio, embora saibamos permanecer entre nós pela força do exemplo e na nossa eterna luta, esse persistente e leal combatente da resistência antifascista, lutador pela liberdade, cidadão exemplar e homem de Abril.

 

Alexandre Castanheira foi um lutador, um humanista, um homem de cultura, um firme resistente, animador dos meios associativos na sua terra e por onde passou ao longo da vida, foi um exemplo de coragem e dedicação às causas grandes do nosso tempo, pelo fim da tirania fascista e por um mundo melhor sem opressão e pelo fim da exploração do homem pelo homem.

 

À família e aos seus mais próximos a URAP aqui deixa a sua sentida homenagem.

 

Aproveitamos, para igualmente endereçar ao Núcleo da URAP do concelho de Almada e aos muitos amigos de Alexandre Castanheira, nomeadamente nos meios culturais e associativos do seu Município com ele conviveram a nossa imensa estima, reafirmando sempre que a melhor homenagem que podemos fazer aos que partem é continuar a luta pelas causas justas por que sempre se bateram.

 

Honra à sua memória!

 

P'lo Conselho Directivo

 

Ana Pato; Bento Jesus; Francisco Canelas; Encarnação Raminho; Feliciano David; Nuno Figueira; Jorge Cabral; José Manuel Vargas; José Pedro Soares; Luís Filipe Almeida; Marília Villaverde; Mário José Araújo; Olga Macedo; Rosa Macedo; César Roussado

 

16 de Janeiro de 2018

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