Intervenção de Margarida Aboim Inglez na homenagem a Maria Isabel Aboim Inglez

Intervenção de Margarida Aboim Inglez

Homenagem a Maria Isabel Aboim Inglez  - 8 de Março de 2013

 

Cabe-me a tarefa de dizer algumas palavras em nome da família de Maria Isabel Aboim Inglez.

A minha avó Maria Isabel Aboim Inglez casa-se com 20 anos com Carlos Lopes Aboim Inglez, engenheiro no sector petrolífero, cujo pai fora ministro da República e que, enquanto republicano, fora perseguido pelo regime fascista. Ambos democratas, a sua casa torna-se um ponto de encontro de personalidades como Bento de Jesus Caraça, Dias Amado e muitos outros. Quando o meu avô adoece com um cancro a minha avó decide, já com cinco filhos, tirar o Curso de Letras. Fica viúva com 40 anos e tem de trabalhar muito para criar os seus 5 filhos e conseguir sobreviver, tanto mais que era perseguida por não ser católica e ser antifascista. Montou um colégio - o Colégio Fernão de Mgalhães, onde foi professora. Lecionou também na Faculdade de Letras, ainda deu aulas de sociologia na Escola de Enfermagem da Rockfeller no IPO, e quando foi proibida de lecionar pela ditadura fascista, aceita um convite para ir dar aulas no Brasil. Nessa altura não a autorizam a ir para o Brasil e retiram-lhe o passaporte. Monta então um atelier de costura e depois viverá até falecer dando aulas particulares. Inicia a sua actividade política com o MUD, em 1947.

É uma tarefa difícil falar sobre a minha avó porque, por um lado, se trata de uma família numerosa: a sua primeira filha, também ela Maria Isabel (já falecida) viveu com ela até à sua morte, Maria Luísa (aqui presente), Maria Margarida, Carlos e António (ambos falecidos), que criou e amou com ternura imensa, sempre disponível para os ajudar e ensinar - porque a sua vocação para o ensino a levou a ser simultaneamente professora e mãe - e por estar sempre presente (mesmo quando ausente fisicamente) quando dela necessitassem. Porque também foi irmã e tia e também deu aulas a alguns dos seus sobrinhos e porque foi também avó de nove netos, dos quais a sua curta vida apenas lhe permitiu conhecer cinco. Porque, com a coragem de lutadora que foi em toda a sua vida, enviuvando cedo e enfrentando enormes dificuldades já aqui assinaladas, incluindo financeiras, cria e acompanha de perto a vida dos seus filhos.

E porque, por outro lado, não é fácil exprimir com rigor toda a dimensão da importância que a sua figura, a sua personalidade invulgar, a sua cultura integralmente humanista e a sua actividade cívica tiveram para os seus familiares, tanto pelo exemplo como pela repercussão em toda a família das perseguições de que foi alvo. A sua firmeza de carácter e a sua tenacidade, os ideais de antifascista e de lutadora pela liberdade e democracia que abraçou, como disse o meu Pai "a sua postura (...) toda a sua atitude e comportamentos morais, as perseguições que lhe moveram, incluindo as prisões, tiveram uma influência enorme na sua família". Também os seus filhos foram perseguidos, por serem seus filhos e porque de uma ou outra forma, seguindo o seu exemplo, também eles participaram - de forma diferenciada, é certo - na luta antifascista, na luta pela liberdade e democracia no nosso país.

Duas das suas três filhas (a Maria Luísa e a Margarida) foram alvo de perseguições: a primeira foi proibida de lecionar, a segunda foi expulsa da Função Pública pelo regime fascista e apenas foi reintegrada após o 25 de Abril. Noutro plano, e pouco tempo após ter enviuvado, enfrenta ainda a grave doença que o seu filho mais novo, António, contrai ainda adolescente. Doença que irá implicar uma hospitalização muito prolongada, que acompanha dedicadamente sem que, por momento algum, descure os outros filhos também eles sofrendo com a doença do irmão.

Segue com grande coragem e defende a actividade política do seu filho Carlos, que adere ao PCP em 1946, passa um período de semi-legalidade, e "mergulha" definitivamente na clandestinidade no início dos anos 50. Quando o meu Pai é preso pela última vez, em Junho de 1959, no dia seguinte a nossa casa é assaltada pois ela já tinha sido detectada pela PIDE a minha mãe Maria Adelaide Dias Coelho Aboim Inglez e eu, ainda não tinha cinco anos, fomos presas, levadas para a Sede da PIDE na António Maria Cardoso (hoje um condomínio de luxo) e depois para Caxias.

Para além da permanente exigência da minha mãe de me entregar à família, o que consegue cerca de uma semana depois da prisão, é a minha Avó quem se dirige à visita em Caxias para eu lhe ser entregue. Viverei com ela e a minha Tia Isabel até 1962. Desses poucos anos recordo a viagem de Caxias até ao Estoril, onde vivia, no seu "2 cavalos" - que viríamos a chamar de "tio Pantufa" (os netos mais velhos que a conheceram), da forma terna como me "conquistou", como seguia a escola que passei a frequentar e os trabalhos de casa, mas também as conversas e brincadeiras que tantas e tantas vezes tínhamos. Após a libertação da minha mãe, um ano e meio depois também ela, a minha mãe, vem viver para casa da Avó.

Mãe solidária, acompanha e intervém activamente nos processos que a PIDE move ao seu filho Carlos - meu Pai, discutindo com ele e com os seus advogados a defesa, redigindo numerosas cartas e petições, nas diversas vezes em que é presente aos tribunais fascistas. A sua presença nas visitas na prisão de Peniche marcou uma geração de familiares dos presos, incluindo os filhos - crianças ou jovens -, porque não as assumia apenas como visita a um familiar, mas como ocasião de dar um exemplo de firmeza moral, de coragem cívica e de dignidade no trato com o aparelho prisional.

Por tudo isto é com inteira verdade que há bem poucos dias, netos que a não conheceram, diziam que a Avó - Maria Isabel - continuava presente nas nossas vidas.

Foi uma mulher excepcional cuja craveira intelectual e invulgar personalidade nos colocam perante uma questão ainda actual: a de que, entre os enormes danos que o fascismo provocou ao país, a marginalização e a perseguição a tão grande número das suas melhores figuras de intelectuais não estará certamente entre os menores.

Saibamos nós ser continuadores dos seus valores políticos, da sua firmeza perante os inimigos e da sua abertura perante as diferentes correntes antifascistas, dos valores éticos, morais, e culturais, dos valores da liberdade, da democracia porque se bateu em toda a sua vida. Será, certamente essa a melhor homenagem que lhe poderemos prestar projectando-os para o futuro, para um Portugal verdadeiramente livre e democrático.