O MND e as «Eleições» de 1951

sessao_mnd_s.jpgSessão O MND e as «Eleições» de 1951 na Biblioteca-Museu República e Resistência

No dia 22 de Outubro, pelas 16 horas, teve lugar uma Sessão dedicada ao tema O Movimento Nacional Democrático (MND) e as Eleições de 1951 na Biblioteca-Museu República e Resistência da Câmara Municipal de Lisboa, numa parceria organizativa com a URAP. Para esta sessão, onde estiveram presentes cerca de três dezenas de sócios e amigos da URAP, foram convidados a usar da palavra António Areosa Feio, antigo membro da Comissão Central do MND, Aurélio Santos, membro do Conselho Nacional da URAP e seu antigo coordenador, e Silas Cerqueira, investigador em Estudos Africanos e destacado activista do movimento pela Paz durante o regime fascista e após o 25 de Abril. Coube a David Pereira, membro do Conselho Directivo da URAP, a tarefa de moderar o debate.

Na sua intervenção, António Areosa Feio introduziu o contexto de formação do MND, no rescaldo da intensa campanha e luta de massas que havia constituído a candidatura em torno de Norton de Matos em 1949 e em que o MND se assumiu como o seu legítimo continuador e no reconhecimento de que com a força do povo e dos trabalhadores portugueses a luta antifascista adquiriria uma força insuperável, tal como se comprovara nos anos imediatamente anteriores. Sem tibiezas na denúncia do carácter criminoso e terrorista do regime fascista, o MND assumiu-se como uma plataforma de luta antifascista que buscou a construção da unidade antifascista na esteira do trabalho desenrolado nos anos anteriores e que em 1958, nas campanhas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado continuaram recolhendo a adesão de milhares de portugueses. Até porque desde o início da sua constituição, o MND se viu forçado a conviver com a intensa repressão que o fascismo lhe ditou.

Após esta intervenção, foram projectados alguns documentos e imagens evocativas da história do MND e da candidatura de Ruy Luís Gomes à Presidência da República, o que foi possível devido à gentil cedência desses materiais pelo próprio António Areosa Feio e pelo Partido Comunista Português. Neles se vêem reflectidas as decisões de constituição do MND em 1949, a adesão de destacados vultos da resistência antifascista à sua Comissão Central e Comissões distritais como Ruy Luís Gomes, Virgínia Moura, Maria Lamas, Areosa Feio, Lobão Vital, José Morgado, Lino Lima, entre outros ou o anúncio público da apresentação da candidatura por Ruy Luís Gomes, assumindo-se como uma candidatura do povo português.

De seguida, Aurélio Santos recordou como o MND foi o continuador dos grandes movimentos de unidade antifascista em Portugal, evocando o Movimento Nacional de Unidade Antifascista - MUNAF - em 1943 e o Movimento de Unidade Democrática - MUD - em 1945, isto num contexto de cisão nessa unidade, devido à integração do Portugal fascista como membro fundador da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO). Também evocou a concepção anti-militarista que alguns anos mais tarde muitos milicianos das Forças Armadas abraçaram e que esteve na génese do Movimento das Forças Armadas (MFA) que após a Revolução de Abril permitiu a concretização da Aliança Povo-MFA. Nos dias de hoje, Aurélio Santos defendeu que continuava a ser muito importante a união por objectivos concretos, como o da defesa do maior bem comum que o povo possui: o Portugal de Abril, com os seus avanços democráticos que a universalidade dos direitos políticos, económicos, sociais e culturais finalmente concretizou após 1974, e que actualmente se encontram seriamente ameaçados por mais de três décadas de políticas praticadas exactamente ao seu arrepio.

Por fim, Silas Cerqueira relatou a forma como convivera com vários dos membros do MND como Maria Lamas, membro do Conselho Mundial da Paz, ou Ruy Luís Gomes e José Morgado, devido ao seu precoce envolvimento no movimento pela Paz em Portugal. A perspectiva de que países como os EUA ou a Grã-Bretanha eram apoiantes activos da ditadura fascista portuguesa nesses anos não foi apreendida por alguns sectores oposicionistas ao regime fascista, não assumindo uma perspectiva contrária ao imperialismo estrangeiro em Portugal. Coube-lhe igualmente uma viva evocação da memória destes heróis da luta antifascista portuguesa, enquanto intérpretes de uma acção inestimável para que o povo português pudesse recuperar o seu bem mais precioso e que foi confiscado durante quarenta e oito anos pelo fascismo: a liberdade.

Coube a David Pereira, no encerramento do debate que se seguiu e que permitiu o conhecimento de mais pormenores da riqueza história da resistência antifascista portuguesa até à Revolução de 1974, a alusão a que o exemplo destes patriotas antifascistas nos acompanhava sempre nas lutas do presente e do futuro e que a URAP se empenhava em contribuir para essa linha de actuação nos dias de hoje e sobretudo junto das novas gerações.