URAP presta homenagem ao músico e resistente antifascista Lopes-Graça

lopes-graca.jpgFernando Lopes Graça (1906/1994), compositor e músico, foi homenageado dia 14 de Dezembro em Lisboa no ciclo de conferências Rostos das Resistência, numa sessão promovida pela URAP e a Biblioteca-Museu República e Resistência que contou com a participação de Filipe Diniz e do Coro Lopes-Graça.

(ver intervenção de Filipe Diniz)

Diamantino Torres, que presidiu ao evento, apresentou o Coro Lopes Graça da Academia dos Amadores de Música, fundado pelo compositor, que actuou para as cerca de 60 pessoas presentes no Edifício Grandella, dirigido pelo maestro José Robert.

Da primeira parte do programa constava três canções heróicas com música original de Fernando Lopes Graça: Canto do Livre (com poema de Soares de Passos), Exaltação (com poema de Miguel Torga) e Firmeza (com poema de João José Cochefel).

A figura de Lopes Graça foi enaltecida pelo arquitecto Filipe Diniz, que realçou o homem,  resistente antifascista, dedicado à causa da emancipação dos trabalhadores e dos povos, e o artista, destacado vulto da cultura portuguesa, compositor, maestro e músico.


Na segunda parte do programa foram ouvidas canções regionais portuguesas, com arranjos de Fernando Lopes Graça: Os Homens que vão para a guerra (do Douro Litoral), Janeiras  “Deus lhe dê cá boas noites” e Reis Quem vos vem dar Boas-Festas.

As I e II Cantatas de Natal, cantos tradicionais portugueses com arranjos de Lopes Graça, e mais duas canções heróicas, Canto de Esperança (com poema de Mário Dionísio) e Acordai (com poema de José Gomes Ferreira) finalizaram a sessão.

Marília Villaverde Cabral, coordenadora do Conselho Directivo da URAP, agraciou o Coro Lopes Graça, com a entrega de um livro sobre a obra do homenageado ao maestro José Robert.

O ciclo Rostos da Resistência, que com esta sessão terminou, teve início a 26 de Setembro, com uma homenagem a Bento Gonçalves, seguindo-se Virgínia Moura a 4 de Outubro.
 
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Fernando Lopes Graça nasceu em Tomar a 17 de Dezembro de 1906. Começou a trabalhar, aos 14 anos, como pianista no Cine-Teatro de Tomar. Em 1923, frequentou o Curso Superior do Conservatório de Lisboa, tendo como professores, entre outros, o maior pianista português: Mestre Vianna da Motta (antigo aluno de Liszt).


Em 1928, frequentou também o curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa, que viria a abandonar em 1931, em protesto contra a repressão a uma greve académica. Fundou em Tomar o semanário republicano "A Acção".


Em 1931, no dia em que concluiu, com a mais alta classificação, as provas de concurso para Professor de Solfejo e Piano do Conservatório Nacional, é preso pela polícia política, encerrado no Aljube e, a seguir, desterrado para Alpiarça.


Em 1934, concorreu a uma bolsa de estudo de música em Paris. Ganhou o concurso mas a decisão do Júri é anulada por ordem da polícia política.


Em Setembro de 1935 é de novo preso e enviado para o Forte de Caxias.


Em 1937 é libertado e partiu para França por conta própria, estudando Composição e Orquestração com Koechlin.


Em 1939 recusou a nacionalidade francesa, sendo forçado a regressar a Portugal.


Em 1940 é-lhe proposto dirigir os Serviços de Música da Emissora Nacional. Não chegou a tomar posse do cargo porque recusou assinar a declaração de "repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas" que, então, era exigida a todos os funcionários públicos.


Em 1945 integrou o Movimento de Unidade Democrática (MUD], do qual virá a ser dirigente. No âmbito das actividades do MUD, Fernando Lopes-Graça criou o Coro do Grupo Dramático Lisbonense, mais tarde Coro da Academia dos Amadores de Música. As Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas são cantadas por todo o país. Aderiu ao Partido Comunista Português.


Com o aumento da repressão, na década de 50, as orquestras nacionais são proibidas de interpretar obras de Fernando Lopes-Graça; os direitos de autor são-lhe roubados; é-lhe anulado o diploma de professor do ensino particular; é obrigado a abandonar a Academia dos Amadores de Música, à qual só regressa em 1972.


É autor de uma vasta obra literária sobre música portuguesa, mas maior ainda é a sua obra musical, da qual são assinaláveis os concertos para piano e orquestra, as inúmeras obras corais de inspiração folclórica nacional, o Requiem pelas Vítimas do Fascismo (1979), o concerto para violoncelo encomendado e estreado por Rostropovich, e a vastíssima obra para piano, nomeadamente as seis sonatas que constituem um marco na história da música pianística portuguesa do século XX.


Condecorações: Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (em 1981) e  Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (em 1987).