XXI visita guiada do núcleo de Santa Iria da Azóia a Torres Vedras

visita guiada santa iria a torres vedras s5O núcleo da URAP de Santa Iria de Azóia deslocou-se a Torres Vedras, dia 26 de Maio, naquela que foi a XXI visita do núcleo, destinada a homenagear resistentes antifascistas daquele concelho.


Os cerca de 20 sócios e amigos da URAP estavam acompanhados pela coordenadora, Marília Villaverde Cabral, e foram recebidos nos Paços do Concelho pela vereadora da Cultura da Câmara Municipal.


Ana Umbelino, no seu discurso de boas-vindas, agradeceu a presença da URAP e salientou a importância do seu papel em manter a história viva para que não se esqueça a luta dos antifascistas, nomeadamente em Torres Vedras, dando como exemplo o tarrafalista Fernando Vicente, Francisco Manuel Fernandes e seu pai, Pedro Fernandes, preso político.

 


visita guiada santa iria a torres vedras s1Por seu lado, Marília Villaverde Cabral agradeceu a colaboração da Câmara de Torres Vedras na luta contra o esquecimento do que foi o fascismo e a resistência, lembrando a recente sessão de apresentação do livro sobre a Fortaleza de Peniche, lançado naquela cidade por José Pedro Soares e Vítor Dias.


Seguiu-se uma conversa com Manuel Fernandes, que foi de Maio de 1974 a Dezembro de 1976 – data das primeiras eleições autárquicas da democracia - presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Torres Vedras.


Manuel Fernandes contou como aconteceu a sua eleição como presidente da Comissão Administrativa em Maio de 1974, a luta antes do 25 de Abril, recordando episódios vários, nomeadamente reuniões da CDE, um Plenário muito importante no Pinhal de Santa Cruz, e a sua fuga pelo terraço de sua casa, quando foi candidato pela CDE em 1973.

 


visita guiada santa iria a torres vedras s4A comitiva deslocou-se a Paúl para visitar a rua e a placa que evoca o tarrafalista Fernando Vicente (24.04.1914-22.01.1965), na qual se pode ler: resistente antifascista, militante comunista, tarrafalista. Fernando Vicente "inaugurou" o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde permaneceu 17 anos. Libertado com o fecho do campo, manteve a sua actividade política clandestina, como militante do PCP, viria de novo a ser preso em 1963, sem julgamento, e já com uma saúde débil devido aos maus tratos sofridos. Seria libertado ao fim de seis meses, mas morreu pouco depois, a 22 de Janeiro de 1965, na sua terra natal.
Fernando Vicente seria homenageado pelo núcleo da URAP ainda com uma deslocação à sua campa, no Cemitério de S. João, em Torres Vedras, onde foi depositada uma coroa de flores.


Na ocasião, a coordenadora da URAP referiu que "Fernando Vicente ingressou na Armada Portuguesa e, muito jovem, aderiu à ORA, Organização Revolucionária da Armada, na luta contra o fascismo. Em Outubro de 1936, depois de uma feroz repressão, estes marinheiros, cuja coragem são um exemplo e um símbolo da luta antifascista, são deportados para o Campo de Concentração do Tarrafal, campo da morte lenta, como ficou conhecido, inspirado nos campos de concentração do nazismo alemão".


"Tinha 22 anos, na força da vida e, em vez da felicidade a que tinha direito, sofreu a fome, castigos, espancamentos e a terrível malária e a biliosa", acrescentou, lembrando que a presença da URAP naquele local servia para garantir " (...) que os seus sacrifícios não foram em vão. Exemplos como os de Fernando Vicente são um incentivo para a URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses para continuar o seu combate contra o esquecimento e pelos ideais que nortearam o 25 de Abril".


visita guiada santa iria a torres vedras s6Falou também Manuel Fernandes, que leu a intervenção que fez na romagem ao cemitério em 1966, um ano após a morte de Fernando Vicente, tendo sido interrompido pela polícia de choque com cães polícias que irromperam no local empurrando dezenas de pessoas e pisando sepulturas sem qualquer respeito.


A delegação da URAP visitou em Vila Nova da Espera a casa onde se esconderam, depois da célebre fuga de Peniche de 1960, o presos político Joaquim Gomes e o Guarda José Alves que ajudou à evasão e mais tarde se exilou em Bucareste, Roménia.


Em seguida dirigiram-se ao Largo da Estação, lugar da concentração de onde, no dia 26 de Abril de 1974, muitas dezenas de habitantes de Torres Vedras partiram para Peniche com a palavra de ordem "Todos para Peniche até à saída do último preso".

 


visita guiada santa iria a torres vedras s2Com uma visita à igreja de Nossa Senhora da Graça e ao Convento com o mesmo nome, fundado pela Ordem dos Agostinhos, no séc. XVI, em particular ao claustro com as paredes revestidas de azulejos do séc. XVIII, de autor desconhecido, e que retrata a biografia de uma figura importante da igreja católica, Frei Aleixo de Menezes, a delegação da URAP terminou a visita cuidadosamente acompanhada por Paulo Ferreira, guia turístico da câmara.