Sessão pública debate "Peniche, História, Memória, Solidariedade e Luta"

peniche sessao 3nov2018 s2A solidariedade e o auxílio do povo de Peniche aos presos políticos e às suas famílias, o apoio às fugas de presos que ocorreram na Fortaleza de Peniche e as detenções de resistentes antifascistas penichenses durante a ditadura foram alguns dos assuntos referidos na sessão pública/convívio de dia 3 de Outubro, organizada pela URAP, dedicada ao tema "Peniche, História, Memória, Solidariedade e Luta".


Com o auditório do Edifício Cultural da Câmara Municipal de Peniche repleto, antifascistas do concelho e vindos da região de Lisboa e Setúbal ouviram um antigo pescador, Floriano Sabino, falar da vida dos pescadores durante o fascismo.


Para ser pescador, o jovem adolescente precisava de dar um mergulho para mostrar que sabia nadar, quer fosse Verão ou Inverno. Depois, normalmente, ficava a trabalhar com o pai "à mercê", o que quer dizer de graça. Quando tinha um mestre, este avaliava-o e dava-lhe sucessivamente um quarto de quinhão, meio quinhão... até finalmente ter um salário. Tinham de trabalhar sempre, sem dia de descanso. Os pescadores entraram em luta para ter direito ao domingo: em vez de irem para o mar na noite de domingo queriam ir às 2h da madrugada de segunda-feira. Foi graças a muitas reuniões clandestinas e a muitas lutas que o conseguiram.

peniche sessao 3nov2018 s1Em 1961 fizeram uma greve de quatro meses e quando do 25 de Abril de 1974 encontravam-se parados. Entretanto, muitos pescadores foram presos na Prisão da Capitania. Depois de Abril foi a ocupação da Casa dos Pescadores e foi o movimento cooperativo que revolucionou a pesca em Peniche, contou Floriano Sabino.


João Neves, do núcleo da URAP de Peniche, foi o primeiro orador. Sublinhou que Peniche, ao longo da ditadura fascista, foi uma terra de resistência e de liberdade. Falou das lutas travadas por pescadores (guerra das espoletas e greve de 1961), pelas conserveiras e pelos calafates (1º de Maio 1962), da actividade da oposição democráticas nas eleições de Norton de Matos e Humberto Delgado (1969 e 1958) e na preparação do 3º Congresso da Oposição Democrática (Aveiro, Abril 1973). Destacou ainda o apoio e a solidariedade da população de Peniche para com os presos políticos e suas famílias durante o funcionamento da Fortaleza de Peniche como prisão.


peniche sessao 3nov2018 s3Depois de afirmar que muitos presos políticos naturais de Peniche passaram pelas prisões do Aljube, Caxias, Angra do Heroísmo, Tarrafal e Peniche, João Neves lembrou a data da inauguração do posto da PIDE/DGS na cidade, Janeiro de 1965, e a consequente intensificação da vigilância sobre a Fortaleza, as famílias dos presos e a população da cidade.


Falou, exemplificando, do apoio e da solidariedade das gentes de Peniche aos presos políticos e suas famílias durante o encarceramento destes e nas fugas, e terminou classificando a Fortaleza de Peniche como o mais importante monumento do Concelho de Peniche do ponto de vista político, histórico, cultural e turístico, que recebe actualmente mais de 100 mil visitantes por ano.


A criação do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade no espaço da Fortaleza, disse João Neves, foi desde o 25 de Abril uma reivindicação da população de Peniche e será um dos mais importantes monumentos nacionais para a preservação da memória histórica da ditadura fascista, da resistência antifascista e da luta pela liberdade e pela democracia.


Para Rogério Cação, vereador da CDU na Câmara Municipal, Peniche tem três marcas: o mar, a pesca e os pescadores; a renda de bilros; e a prisão política. Terra semeada de "bufos" durante o fascismo foi igualmente terra de resistência.


Lembrou o filme "A Fuga" (1977), de Luís Filipe Rocha, baseado na célebre fuga de António Dias Lourenço. O filme relata o dia-a-dia de um prisioneiro político, no tempo do fascismo, que consegue escapar-se do Forte de Peniche. Desde o julgamento no Tribunal Plenário, que termina com um espancamento levado a cabo pelos agentes da PIDE, até à fuga pelo mar, que devolve o protagonista à liberdade e à resistência, o filme apresenta uma série de situações da vida quotidiana naquela cadeia fascista.


Rogério Cação termina com a certeza de que o Museu – apesar de não estar acabado a tempo de ser inaugurado a 27 de Abril de 2019 – vai ser uma realidade, porque é um projecto com mais de 30 anos, é um projecto com alma.


Numa curta intervenção, o ex-preso político e membro da direcção da URAP José Pedro Soares falou da história da Fortaleza de Peniche ao longo dos séculos e da importância do futuro Museu quer para honrar os que lutaram pela liberdade e pela democracia quer como factor de desenvolvimento económico para Peniche.
José Pedro Soares anunciou que estava a ser lançada naquele espaço a 4ª edição do livro "Forte de Peniche, Memória, Resistência e Luta", editado pela URAP, no qual consta a lista dos 2 498 presos que passaram pela cadeia de Peniche.


O presidente da Câmara de Peniche, Henrique Bertino - que participou na sessão acompanhado pelo presidente da Assembleia Municipal, Américo Gonçalves, e a presidente da Junta de Freguesia, Teresa Batista Lopes -, valorizou a construção do futuro Museu como uma necessidade de preservar a memória dos tempos da ditadura, escrever a história da História para que esta não se perca, relatando o andamento das duas empreitados das obras em curso e a necessidade de em 2019 se lançar mais uma empreitada.


Depois de dizer que em Abril de 2019 será apenas inaugurado um marco, Bertino garantiu que Peniche sairá muito valorizada com a abertura do Museu, que incluirá um espaço próprio dedicado à região, ao mesmo tempo que se vai construir uma grande unidade hoteleira junto ao mar.


Marília Villaverde Cabral, coordenadora da URAP, foi a oradora final. Valorizou o facto da sessão "ser dedicada ao Povo de Peniche, a Peniche que não era só um símbolo da falta de liberdade e da repressão fascista, mas a Peniche do povo solidário que ajudou famílias de presos, que fingiu não ver fugas quando os prisioneiros saltavam as amuradas. A Peniche das lutas de pescadores, a Peniche que com a sua beleza cativa quem a visita".


"O sonho de criar um museu para que a memória não se apague - um museu que contenha depoimentos de presos, documentação para ser consultada por jovens estudantes que se interessem pela nossa História Contemporânea, um museu que seja também uma homenagem aos que lutaram contra o fascismo, perdendo a sua liberdade e muitos as próprias vidas -, esse sonho está a concretizar-se! Valeu a pena a luta dos democratas. E hoje podemos dizer que este Museu Nacional e a Fortaleza que o envolve vão ser devolvidos ao Povo de Peniche", disse.


A oradora, que enunciou marcos importantes do trabalho da URAP, sublinhou que esta "tem desenvolvido a sua actividade no combate contra o esquecimento do que foi o fascismo. (...) Numa sociedade como aquela em que vivemos, cujos principais órgãos de comunicação social estão tomados pelos grandes interesses económicos e em que quase não há espaço para as vozes que se apresentam fora do pensamento dominante, a URAP continuará a intervir contra o esquecimento dos homens e mulheres que, pelo seu amor à liberdade e ao seu povo, perderam anos das suas vidas nas prisões e muitos a própria vida. Para além deste importante trabalho de combate à revisão da História, tem tido activa participação na luta pela democracia, pela solidariedade para com os povos e pela Paz (...)".


Aludindo à situação internacional, afirmou, destacando o Brasil, mas nomeando igualmente outros países, que "vivemos uma situação internacional marcada por uma grande instabilidade e incerteza, com a acumulação de tensões e perigos de guerra em várias regiões do Mundo. Na Europa, as eleições dos últimos anos foram ganhas por partidos nacionalistas, populistas e de extrema-direita, mas já em 2014 e 2015, a extrema-direita tinha ocupado lugares nos parlamentos de vários países".


Referindo à Fortaleza de Peniche, a coordenadora da URAP garantiu que "conseguimos com a nossa luta e com a de todos os democratas que nos acompanharam, que o Forte de Peniche, símbolo da repressão, onde tanto se resistiu, não fosse transformado numa pousada de luxo, mas sim num verdadeiro Museu da Liberdade e da Resistência. Temos apresentado em várias sessões por todo o país o livro sobre o Forte de Peniche, que relata a sua história e incluí um número significativo de nomes de presos, numa investigação feita pela URAP e pela Câmara Municipal de Peniche, e que vai na 4ª edição, que hoje vos trazemos em primeira mão".


A sessão pública terminou com poesia (Ângela Malheiros e Rogério Cação) e música (João Leitão e Francisco Naia com José Carita) da resistência.

Intervenção de Marília Villaverde Cabral (texto)