Apelo ao Governo Português em defesa da Fortaleza de Peniche

Apelo ao Governo Português
em defesa da Fortaleza de Peniche
símbolo da repressão e da luta contra o fascismo

 

Ex.mo Sr. Primeiro-Ministro, Dr. António Costa

 

Centenas de ex-presos políticos, seus familiares, amigos e muitos democratas, profundamente preocupados e indignados com a intenção tornada pública de o Governo a que V. Ex.ª preside em concessionar a Fortaleza de Peniche – um dos mais fortes símbolos da repressão fascista no continente – a entidades privadas para fins turísticos, reunidos no dia 29 de Outubro de 2016 no Forte de Peniche numa acção em defesa da preservação da memória da resistência colectiva ao fascismo, reclamam que se ponha fim a tal projecto, que, a ser concretizado, seria mais um passo na política de fazer esquecer que o fascismo existiu com todo o seu cortejo de crimes e representaria um atentado à democracia, conquista inseparável da resistência do povo português à ditadura.

 

Há valores que não podem, nem devem ser mercantilizados.

 

Os edifícios da Cadeia do Forte de Peniche onde estiveram 2500 presos, encerram uma história de milhares de anos de vidas privadas da liberdade e sujeitas a um regime prisional odioso que não poupava os familiares dos presos, também eles sujeitos a actos de repressão, arbitrariedade e humilhação.

 

O Forte de Peniche encerra também a história de numerosas manifestações de luta, de solidariedade, de dignidade e apego à liberdade.

 

O respeito pela memória de milhares de portugueses que deram o melhor das suas vidas, e muitos a própria vida, por um Portugal livre e democrático, exige a preservação do Forte de Peniche como símbolo da resistência e da luta contra o fascismo.

 

Todos os anos dezenas de milhares de pessoas, portugueses e estrangeiros, visitam a Fortaleza de Peniche o que lhes permite tomar conhecimento de uma realidade que enegreceu o nosso século XX.

 

Aqui vêm pessoas para tomar conhecimento do lugar onde os seus familiares, companheiros, pais, avós foram privados da liberdade.

 

Aqui vêm alunos de escolas de todo o País onde tomam conhecimento de uma realidade que nas escolas não lhes ensinam.

 

O dever do Estado não é atentar contra um dos mais significativos símbolos da repressão, é adoptar as medidas políticas e financeiras para garantir a preservação da Fortaleza de Peniche como património nacional ao serviço da comunidade e assegurar a instalação de um verdadeiro Museu da Resistência que cumpra a imperiosa função de dar a conhecer às jovens gerações o que significaram 48 anos de ditadura fascista para o nosso País, quantos sacrifícios impôs aos Portugueses e o que foi a heróica luta do povo pela liberdade e pelas conquistas da Revolução de Abril.

 

Um povo que não conhece o passado do seu País não está em condições de compreender o presente, nem de enfrentar os problemas do futuro.

 

Este é o apelo veemente que fazemos a V. Ex.ª, o qual endereçamos também a outros órgãos do poder e à sociedade em geral, um apelo que estamos certos é subscrito por todos os democratas e antifascistas que querem que os valores de Abril perdurem.

 

Forte de Peniche, 29 de Outubro de 2016