Participantes do Encontro-convívio em Peniche contra a concessão do forte para fins turísticos

Convivio FortePeniche 1O encontro-convívio estava marcado para a tarde de 29 de Outubro. Seis centenas de pessoas, sobretudo ex-presos políticos e familiares, vindas de todo o país, foram ao Forte de Peniche dizer que estão contra a concessão da fortaleza a privados.


Juntaram-se no pátio do forte - onde se encontravam também outros antifascistas e democratas e até alguns visitantes ocasionais e turistas - e aprovaram, com emoção, algumas lágrimas e muitas palmas, o "Apelo ao Governo em defesa da Fortaleza de Peniche símbolo da repressão e da luta contra o fascismo".


convivio forte peniche 2Segundo o documento, "o respeito pela memória de milhares de portugueses que deram o melhor das suas vidas, e muitos a própria vida, por um Portugal livre e democrático, exige a preservação do Forte de Peniche como símbolo da resistência e da luta contra o fascismo".


José Pedro Soares, antigo preso político, presidiu ao "Encontro - Convívio de ex-Presos Políticos, Familiares e Amigos", e contou aos presentes os anos de prisão e as brutais torturas a que foi submetido. O orador contestou veementemente a intenção tornada pública pelo governo em concessionar a Fortaleza de Peniche a entidades privadas para fins turísticos.

 


convivio forte peniche 4No apelo, os presentes reclamaram "que se ponha fim a tal projecto, que, a ser concretizado, seria mais um passo na política de fazer esquecer que o fascismo existiu com todo o seu cortejo de crimes e representaria um atentado à democracia, conquista inseparável da resistência do povo português à ditadura".

 

Para Domingos Abrantes, o preso vivo com maior número de anos em detenção no forte, tornar o Forte de Peniche numa unidade hoteleira onde os turistas vão ter vista para o Atlântico "é um insulto à memória" daqueles que aí estiveram detidos e que nem o mar conseguiam ver.


convivio forte peniche 6"O projecto de privatizar a Fortaleza de Peniche deve ser considerado um atentado contra a própria democracia e a violação do dever de qualquer governo democrático de honrar a memória de todos aqueles que deram a própria vida para que o povo português pudesse ter liberdade", declarou Domingos Abrantes.

 

Num testemunho emocionado – as intervenções foram intercaladas com poemas lidos pelo escritor e antifascista Domingos Lobo e por Manuel Diogo -, Eulália Miranda, filha do ex-preso Dinis Miranda, falou da sua experiência de criança, lembrando que percorria com a família "muitos quilómetros com grandes dificuldades financeiras para visitar durante uma hora duas ou três vezes por ano o seu pai, após "horas de espera" à porta.

convivio forte peniche 5Depois de José Amador, que deu a visão dos habitantes da vila de Peniche, falou o Capitão Mar-e-guerra Machado dos Santos, um dos militares que dirigiu as operações de libertação dos presos de Peniche no 25 de Abril, encarregado pela Junta de Salvação Nacional, que para além de contestar a decisão, recordou as dificuldades da libertação dos presos, devido à resistência ainda existente após a revolução, sendo que o primeiro saiu só à meia-noite do dia 27.


Marília Villaverde Cabral, coordenadora da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), organização que apoiou a iniciativa desde a origem, apelou para que "o Museu da Resistência não seja descaracterizado, mas, pelo contrário, com um maior investimento, seja mais valorizado".


convivio forte peniche 3"A URAP, através do Protocolo com a Câmara de Peniche que dura há anos e que que foi renovado no último 25 de Abril, numa cerimónia aqui, neste mesmo local, tem organizado visitas de estudantes e seus professores, a maior parte das vezes, acompanhados por vós, companheiros, que aqui estiveram presos", lembrou.

 

Depois de referir que a URAP "se juntou imediatamente à onda de protesto dos democratas, dos antifascistas, que não aceitam esta decisão", confirmou que a organização já promoveu a Petição Pública "Forte de Peniche, Defesa da Memória, Resistência e Luta", que na altura em que foi entregue ao gabinete do primeiro-ministro e à Assembleia da República contava com mais de 5.000 assinaturas.

 

convivio forte peniche 7"A URAP, herdeira da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, vai tudo fazer para que este forte, onde tanto se sofreu, possa ser um Museu que seja também ponto de encontro para todos aqueles jovens que procuram enriquecer as suas teses de mestrado e doutoramento, sobre a Memória destes anos negros do fascismo. Jovens que, com o seu trabalho, não deixam que esta parte da História, com os seus heróis, seja esquecida", disse Marília Villaverde Cabral.

 

O Governo anunciou no início de Outubro a intenção de entregar à iniciativa privada, a fim de serem reabilitados, cerca de 30 edifícios históricos, entre os quais o Forte de Peniche, que serviu de prisão política entre 1934 e 1974.


O actual museu, que os presentes querem ver ampliado e melhorado, foi criado no início da década de 80. Um dos três pavilhões do forte passou a estar aberto ao público como museu municipal, onde foi reconstituído o ambiente como prisão política e se podem visitar parlatórios e celas individuais, como a que ocupou o secretário-geral do PCP Álvaro Cunhal.

Apelo ao Governo

Intervenção de Marília Villaverde Cabral

Intervenção de Domingos Abrantes

Intervenção de Carlos Machado dos Santos

Intervenção de José António Amador