Em Fevereiro de 2025, foi firmado um protocolo entre a Câmara Municipal de Santa Comba Dão e o Arquivo Ephemera visando a criação do “Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência”. Recentemente, foi anunciado que este centro “do Estado Novo”, não do “Estado Fascista”, ia realizar, em Outubro, a sua primeira iniciativa, com uma exposição.
A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) lembra a longa luta que - com a população de Santa Comba Dão, de inúmeros democratas, entre os quais historiadores, de ex-presos políticos e seus familiares e de posições da Assembleia da República - tem sido travada para afastar este propósito na terra onde nasceu o ditador Salazar.
A instalação deste centro na Escola Cantina Salazar, no Vimieiro, a poucos metros da casa onde nasceu o ditador, só servirá para avivar o mito do estadista do fascismo e para desculpabilizar os seus crimes. É por isso lamentável que agora outros reconhecidos historiadores não tenham em conta esta luta de muitos anos.
A URAP considera importante a criação de espaços de memória e de centros de investigação e divulgação do regime fascista. Mas questiona-se porque não fazê-lo em locais que têm sido sugeridos, por historiadores, como nas cidades de Coimbra ou do Porto, nomeadamente, na antiga prisão da PIDE, na Rua do Heroísmo, onde a URAP e muitos democratas e antifascistas lutam há anos pela criação do Museu da Resistência Antifascista.
Que se criem mais museus como o do Aljube, em Lisboa; o Museu Nacional da Resistência e Liberdade (MNRL), na Fortaleza de Peniche; se erga memoriais, como o que o que está a ser preparado pela URAP e pela Câmara Municipal de Oeiras próximo da cadeia de Caxias; ou como o Centro Interpretativo, em construção, na Fortaleza do Heroísmo, nos Açores. A estes, podemos ainda juntar os recentes murais inaugurados em Mafra, Silves, Covilhã, Leiria e Palmela.
A URAP considera que a escolha deste local só servirá para suavizar, branquear e desculpabilizar as criminosas responsabilidades do ditador e do regime fascista. A História do fascismo deve ser estudada e divulgada, mas não em Santa Comba Dão, onde permanecem registos locais e pessoais suavizantes do ditador. Não! Face à história conhecida não pode haver neutralidade.
Esta insistência, envolve de novo a Câmara Municipal de Santa Comba Dão e historiadores, depois de outros se terem, entretanto, afastado de tal projeto.
Não se trata, evidentemente, da realização de iniciativas que deem a conhecer o que foi o fascismo, a repressão, a censura. A URAP realizou recentemente em Santa Comba Dão uma sessão para apresentar o livro “Forte de Caxias, a repressão fascista e a luta pela liberdade”. Para esta iniciativa a URAP convidou o presidente da Câmara Municipal, que informou não poder estar, mas se fez representar por um vereador e técnicos municipais.
Os democratas e antifascistas que desde há muito condenam a criação de tal museu, tenha ele o nome que tiver, fazem-no porque esse projeto presta-se a reativar e ressuscitar o mito e a falsa imagem do estadista do fascismo, e não o ditador responsável pelo Portugal atrasado, reprimido, obediente, escravizado, perseguido. E ainda o colaborador de Hitler, Mussolini e Franco, responsável direto por centenas de mortos às mãos da sua polícia política, e pelas guerras criminosas que iniciou e manteve contra os povos colonizados, onde pereceram milhares de portugueses e de combatentes das ex-colónias.
É do conhecimento público que a Câmara Municipal negociou com a família de Salazar espaço, objetos pessoais, artefactos e compensações, envolvendo consideráveis verbas, e que a Direção Geral da Cultura enviou para Santa Comba Dão duas grandes estátuas de Salazar, que certamente não serão destruídas.
Ao contrário do que aconteceu no resto do país, onde as populações a seguir ao 25 de Abril procederam à higienização da toponímia de ruas e praças, dando-lhes outros nomes - como por exemplo o da liberdade, democracia, do 25 de Abril e mesmo o nome de democratas e de ex-presos políticos -, em Santa Comba Dão tem sido perpetuado o nome do sinistro ditador Salazar na escola, na rua, a que se junta a divulgação constante do cemitério e do sítio da campa do ditador para visitação e culto.
Para o povo de Santa Comba Dão e para o concelho, o período salazarista não representou nenhuma época áurea de desenvolvimento, tal como para nenhum dos concelhos do interior, nem para o país.
Bem pelo contrário, fustigou essas regiões com a emigração, o atraso, o abandono, o definhar das aldeias, impondo modelos de vida económico-social e cultural bafientos, retrógrados, fechados, cujas consequências ainda hoje são visíveis.
Para desenvolver a região de Santa Comba Dão é preciso criar um concelho vivo, desenvolvido, dinâmico e com infraestruturas básicas de apoio às populações, que favoreça a atração destas, em especial, dos jovens, e inverta os surtos demográficos que hoje conduzem à desertificação e à morte das aldeias.
Santa Comba Dão precisa de um Poder Local Democrático com mais meios para satisfazer as necessidades das populações, de uma escola pública de qualidade para todos, de um Serviço Nacional de Saúde que mantenha em funcionamento os Centros de Saúde e os hospitais, uma rede de serviços públicos próximos das populações e de apostas mais claras na cultura e no desenvolvimento.
Podemos, tal como muitos democratas, questionar por que é que em vez de um centro, que inevitavelmente evoca o ditador, não se ergue, sim, em Santa Comba Dão, um mural com o nome dos 33 ex-presos políticos, naturais ou residentes em Santa Comba, um dos quais esteve detido no Campo de Concentração do Tarrafal.
Em nome das cicatrizes ainda tão presentes do que foi o regime salazarista, a URAP, apela de novo para que se abandone tal projeto na terra, na escola, na rua do ditador. Apela para que não se dê oportunidade para que no futuro - e já sem a melhor intenção dos atuais promotores - se venha deturpar mais ainda o que foi o regime fascista, se possa alimentar o saudosismo de derrotados do fascismo e do colonialismo.
URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses,
Lisboa, Setembro de 2026



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