por Bárbara Carvalho, Musicóloga
Convocar uma guerra, seja numa conversa, por escrito ou como exercício de memória, é um gesto profundamente sonoro. É-o, desde logo, pela constante (audível ou imaginada) do som. O som da artilharia, das explosões, dos aviões, do grito; quase como um bordão que é activado automaticamente com a simples enunciação da palavra: guerra. É um som que está gravado na memória de todos nós, seja pela história vivida que perdura nos corpos de tantos homens e mulheres, seja pela partilha através da oralidade e da escrita, seja pelos objectos artísticos que vêm dissecando a guerra ao longo do tempo, seja pelas indústrias culturais que trataram de a fixar no nosso imaginário como um eficaz produto de entretenimento.
Neste último meio raramente encontram expressão todos os outros muitos sons da guerra além daqueles sons designados, reduzidos a efeitos sonoros. E, assim, essas indústrias, as mesmas que continuam a ser usadas também em contexto bélico, vão construindo uma memória sonora da história muito utilmente limitada. A disputa da construção colectiva da memória de uma guerra é, por isso, também sonora. São esses muitos outros sons que podem dar um importante contributo para a batalha da memória da luta antifascista. Sons que nos permitem ouvir os horrores da guerra, mas também os da resistência, da solidariedade, da unidade. Que nos permitem dar tridimensionalidade ao passado e fazer sentido sonoro das descrições que lemos e ouvimos narradas, acrescentando-lhes significado presente. Nos 90 anos da Guerra de Espanha (1936-1939), recuperemos e revisitemos algum desse património sonoro e musical que em Espanha tornou a luta antifascista audível para lá da destruição fascista.
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A 22 de Julho de 1936 era criada a banda do Quinto Regimento, dirigida por Rafael Oropesa, militante comunista e dirigente do Sindicato de Autores. A banda actuou em várias frentes de batalha, nomeadamente em Madrid, Jarama, Brunete e Ebro, tendo partido para o exílio no México em 1939. Quatro dias. Foi esse o tempo que passou entre a sublevação militar de 18 de Julho e a formação de uma banda de 32 músicos dentro de uma unidade em construção.
Este episódio, que se repetiu em diferentes formatos por todo o país, é paradigmático de como a música (sobretudo o fazer música em conjunto) não se limitou a existir como acompanhamento sonoro da resistência, mas antes como parte integrante da sua organização. Esse lugar que a música ocupou durante os anos da guerra decorreu de uma impressionante mobilização de dezenas de milhar de pessoas dos movimentos comunista, antifascista, operário, entre outros, nacionais e internacionais, através da qual foi também mobilizada a cultura popular e, com esta, a possibilidade (necessária) de pôr essa cultura como parte integrante da luta antifascista.
Houve, assim, uma grande mobilização do repertório. Melodias conhecidas eram reinterpretadas com novas letras e constituíram-se como um importante veículo de transmissão de ideias, numa lógica de reaproveitamento do repertório inscrito na memória colectiva que se repete por todo o cancioneiro republicano e que ganha expressão em temas tão conhecidos como “El Quinto Regimiento”, de letra anónima sobre um arranjo que Federico García Lorca escrevera para "¡Anda Jaleo!"; “Si me quieres escribir”, com nova letra anónima sobre a melodia cantada pelos militares espanhóis na Guerra de África, re-significou por completo a canção dando-lhe um conteúdo oposto; “¡Ay Carmela!”, também de letra anónima, reapropriada de uma canção de data atribuída a 1808, data da Guerra da Independência de Espanha. Os exemplos multiplicam-se e a circulação oral destas canções, a multiplicação das versões e a constante adaptação de muitas destas letras dá-nos conta do papel que o povo teve na mobilização e adaptação do cancioneiro para a frente de guerra.
Este movimento foi ganhando forma material. O Ministério da Instrução Pública, dirigido então pelo comunista Jesús Hernández, editou cancioneiros e promoveu um concurso de canções. Na Catalunha, o musicólogo Otto Mayer-Serra reuniu no Cançoner Revolucionari Internacional (1937) hinos catalães, música de autores revolucionários como Hanns Eisler, Silvestre Revueltas e Rodolfo Halffter, e canções novas como “Las compañías de acero” (letra de Luis de Tapia e música de Carlos Palacio), dedicada a unidades do Quinto Regimento. Multiplicavam-se as impressões e distribuição de pequenos livros de canções, juntando o que o povo cantava ao que se ia criando propositadamente, fazendo ouvir a unidade antifascista a construir-se.
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Com a chegada dos cerca de 30000 voluntários das Brigadas Internacionais, vieram também diferentes repertórios que foram engrossando o esforço de criação musical como instrumento de batalha ideológica, mobilização e unidade. Vários foram os músicos e compositores a rumar a Espanha, oriundos de diferentes países, para combater as forças franquistas. Entre eles, o cantor Ernst Busch e o compositor Hanns Eisler foram dos intervenientes que muito contribuíram para musicar a república e a luta antifascista. “Die Moorsoldaten”, por exemplo, foi uma das canções que trouxeram. Criada entre presos políticos no campo de concentração de Börgermoor, foi transmitida pela voz de Busch num arranjo de Eisler, adoptada pelo Batalhão Thälmann e tornou-se património comum da resistência.
Símbolo maior desta vivência é a criação da “Marcha del Quinto Regimiento” (1937). A 19 de Julho de 1936 teria lugar as Olimpíadas Populares, concebidas em protesto contra os Jogos Olímpicos de Berlim. Eisler, então exilado da Alemanha nazi compusera para o evento o “Himne de l’Olimpíada Popular” (letra de Josep Maria de Sagarra). Eram esperados cerca de cinco mil atletas e o hino deveria ser cantado pelo coro do Orfeó Gracienc. Mas o golpe militar de 18 de Julho obrigou ao cancelamento do evento, sendo que muitos atletas ficaram em Espanha e foram os primeiros voluntários antifascistas estrangeiros a combater pela república. O hino, que proclamava que os atletas vinham em paz e não para a guerra, esperou seis meses por outra vida. Em Janeiro de 1937, o poeta José Herrera Petere escreveu uma nova letra para a música de Eisler e foi criada a “Marcha del Quinto Regimiento”.
Ernst Busch esteve dezasseis meses em Espanha. Deu dezenas de concertos, cantou frequentemente na rádio, deu voz a várias edições do cancioneiro Canciones de las Brigadas Internacionales e gravou em Barcelona canções de Eisler, Palacio e Paul Dessau. De Dessau cantava “Die Thälmann-Kolonne” (letra de Gudrun Kabisch). Num dos seus concertos, em Setembro de 1937, na Casa da Cultura de Barcelona, Mayer-Serra apresentou-o com uma conferência intitulada “La música como arma en la lucha antifascista”.
De outros contingentes das Brigadas Internacionais vieram novas canções. Dos britânicos ficou “Jarama Valley” (letra do escocês Alex McDade a partir da música tradicional de “Red River Valley”). Da União Soviética, compositores enviavam para Espanha mais de quarenta canções, ao mesmo tempo que, lá, escreviam sobre o que se passava em Espanha e mostravam solidariedade. Exemplo paradigmático disso é a música incidental de Shostakovich para a peça Salut, Espanha! (Aleksandr Afinoguénov), estreada em Leningrado com Madrid cercada. O mexicano Silvestre Revueltas, em Espanha no Verão de 1937, compôs “México en España” (com letra de Pascual Plá y Beltrán). Esta prática repetiu-se com muitas outras nacionalidades mobilizadas pelas Brigadas para Espanha, dos Estados Unidos da América a Portugal.
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Muitos outros sons ficam por explorar e por explorar fica também o contributo da tecnologia para a difusão desta resistência, solidariedade e unidade através da música e do som. A rádio, os meios de amplificação instalados em veículos que percorriam as cidades e os instrumentos de gravação e reprodução contribuíram para que toda esta dinâmica de criação como aspecto crucial da consciencialização, mobilização e unidade ganhasse uma maior dimensão. Muitos sons, canções ou discursos sobrevivem na memória colectiva por terem ficado registados e por existirem, hoje, serviços públicos que cumprem uma função insubstituível. O Archivo de la Palabra da Biblioteca Nacional de Espanha é disso exemplo, conservando uma colecção de canções e discursos deste período. A digitalização em curso, iniciada em 2022, é de acesso livre e gratuito. No Centro Documental da Memoria Histórica de Salamanca é também possível ouvir as gravações de Busch em Barcelona. O álbum Six Songs for Democracy - Discos de las Brigadas Internacionales contém um selo por cima da gravação de “Lied der Einheitsfront” que indica que “La impresión defectuosa de este disco se debe a las interrupciones de corriente eléctrica durante un bombardeo aéreo”, concentrando nesse objecto a materialização da memória da guerra que podemos continuar a ver e ouvir. É este serviço público que contraria a memória sonora utilmente limitada das indústrias culturais, devolvendo-lhe a tridimensionalidade e significado presente. Manter viva esta história é um exercício fundamental para a batalha da memória da luta antifascista hoje e no futuro, uma batalha que também é sonora.
Artigo publicado no boletim da URAP nº. 186 de 2026



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