Antifascistas

jose barataJosé Júnior Barata

José Júnior Barata nasceu em Lisboa a 26 de Agosto de 1916 e foi preso a 17 de Outubro de 1936, tendo sido deportado 12 dias depois para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, com apenas 20 anos.

Mas a vida deste jovem que esteve no grupo inaugural - 36 dos quais marinheiros - do "Campo da Morte Lenta" tinha já sido muito dura. Começou a trabalhar como serralheiro da Construção Civil aos 13 anos.
Assentou praça (militar sem patente) na Armada com 16, foi grumete/marinheiro no Navio "Bartolomeu Dias".

Em 8 de Setembro de 1936, participou na Revolta dos Marinheiros o que o levou à prisão.
Preso e condenado pelo Tribunal Militar Especial só sairá do Tarrafal em 10 de Setembro de 1947 por razões de saúde, uma cirurgia a que foi submetido.
Mesmo assim, foi ainda preso por mais cinco anos na Penitenciária de Lisboa, Limoeiro e Forte de Peniche.

José Barata era sócio fundador da URAP-União de Resistentes Antifascistas Portugueses.

Foi condecorado com a Ordem de Comendador da Liberdade pelo Presidente da República, em 1999, por proposta de um grupo de camaradas, oficiais sargentos e praças. Em 2009, a Câmara Municipal de Almada, por sugestão dessa mesma comissão, ergueu um monumento, no Feijó, a que foi dado o nome de Monumento ao Marinheiro Insubmisso destinado a homenagear a coragem dos jovens que participaram da Revolta dos Marinheiros de 8 de Setembro de 1936.

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lista presos penicheO Município de Peniche e a URAP apresentam, para consulta pública, a lista provisória dos presos que estiveram na Fortaleza de Peniche durante a ditadura fascista, época em que este monumento albergou uma prisão política.


Esta listagem, igualmente divulgada na Exposição "Forte de Peniche - Lugar de Repressão, Resistência e Luta", patente no Salão Nobre da Fortaleza de Peniche, conta atualmente com 2491 nomes e dela resultará a edificação de um memorial a inaugurar neste imóvel em abril de 2015. Com este projeto pretende-se homenagear publicamente os cidadãos que estiveram presos nesta prisão política, enquanto testemunho da luta pela Liberdade e pela Democracia.

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Intervenção de Margarida Tengarrinha

Homenagem a Maria Isabel Aboim Inglez - 8 de Março de 2013

 

Em 8 de Março de 1952, há exactamente sessenta e um anos, numa sessão comemorativa deste dia promovida pela Associação Feminina Portuguesa para a Paz, Maria Isabel Aboim Inglez desenvolveu brilhantemente as suas ideias sobre a guerra e a paz. Ao seu lado, e um pouco intimidada, fiz a minha primeira intervenção pública e devo confessar que a improvisação me correu muito mal. Com dificuldade em terminá-Ia, optei por apelar à subscrição dos dois abaixo-assinados que no MUD Juvenil andávamos a recolher: o Apelo de Estocolmo, contra o armamento atómico e o Apelo para um Pacto de Paz entre as Cinco Grandes Potências.

Como me viu triste pelo meu fraco desempenho, no fim da sessão a Dra. Maria Isabel aconselhou-me :"É sempre melhor trazer a intervenção escrita, mas mais importante do que um bom discurso é ter a coragem de apelar à luta. como o fizeste!"

 

Ora sobre a Dra. Maria Isabel Aboim Inglez há uma característica que regista a unanimidade dos seus companheiros de luta e de todos aqueles que a admiravam e admiram: é a sua extraordinária coragem de combatente antifascista. A ferocidade implacável com que a perseguiu o seu inimigo, o ditador fascista Salazar, é outra forma de confirmação que via nela uma mulher que lhe fazia frente com uma coragem sem vacilações e uma firmeza de carácter baseada em convicções fundamentadas em princípios teóricos que adoptara e a que era fiel. Essa perseguição constante e sem tréguas para a fazer vergar e desistir das suas convicções não a envolveu só a ela, mas aos próprios filhos.

Contudo, nem a família nem os amigos mais chegados lhe ouviram nunca uma palavra de desalento, um queixume ou um momento de desânimo. Por isso o poeta José Gomes Ferreira lhe chamou "A Indomável" e muitos a classificaram como "A Mulher sem Medo'', naquela época em que em Portugal o medo era a arma que a ditadura fascista lançava como uma rede paralisante sobre o país, tirando não só a liberdade, mas também o pão aos adversários. Esta última ameaça não era menos eficaz do que a repressão violenta, as prisões, torturas e assassínios, pois o medo de perder o pão atemorizava e incapacitava para a acção uma parte importante dos portugueses revoltados contra o regime. (Note-se que esta forma de tentar dominar as consciências não é exclusiva de regimes fascistas, mas é utilizada por muitas outras entidades com os mesmos propósitos de intimidação.)

Salazar usou contra Maria Isabel Aboim Inglez essas duas formas de repressão: não só a prisão, mas muito particularmente a retirada, por todas as formas, dos meios de ganhar a vida profissionalmente, quando já era viúva e mãe de cinco filhos. Foi presa pela primeira vez pela PIDE em 13 de Dezembro de 1946, sendo libertada no dia seguinte, juntamente com outros membros da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), mediante uma caução obtida pela oposição através de uma recolha pública. Dois anos depois, em Janeiro 1948, voltou a ser presa por causa da distribuição de 1500 exemplares de propaganda do MUD, sendo libertada dois meses depois. A terceira prisão, efectuada em pleno Tribunal Plenário onde, como muitas outras vezes, foi testemunha de defesa de presos políticos, deveu-se à firmeza com que enfrentou o juiz presidente, que ordenou a sua prisão por três dias alegando "falta de respeito ao tribunal" e enviando-a para as Mónicas, prisão comum de onde saiu dizendo que "até tinha aprendido alguma coisa com as outras reclusas, tendo feito ali um estudo sociológico", como afirmou a uma jornalista a sua filha Isabel.

No entanto, não é nestas prisões que reside a mais terrível e feroz perseguição de que a Dra. Maria Isabel foi vítima, mas sim no cerceamento e proibição final da sua condição de pedagoga, para a qual tinha um talento excepcional, reconhecido ao mais alto nível nos meios universitários e pelos alunos para os quais foi uma professora inesquecível. Ao recordarmos o percurso de vida desta mulher excepcional, destaco alguns traços marcantes; o seu casamento aos vinte anos com Carlos Aboim Inglez, engenheiro químico e de minas, que no dizer de Henrique de Barros "...foi um combatente sem tréguas contra a ditadura, a tudo disposto para a derrubar, mesmo a pegar em armas, como posso testemunhar pessoalmente" (H.de B.num artigo de opinião ao Diário de Lisboa).

Depois da morte prematura do marido Maria Isabel, que era uma pessoa muito contida e de grande sobriedade na expressão dos sentimentos, diria num desabafo nada habitual nela, que estava profundamente apaixonada por ele. Foi de certo um casamento de grande entendimento e apoio mútuo, entre duas pessoas com uma inteligência acima do vulgar, o que se reflectiu no estímulo do marido para que retomasse os estudos. Ela própria, depois do nascimento do quinto filho, sentiu (cito): "o prazer de aprender, de me cultivar, aliado ao desejo de preparar bem os meus filhos e de ser útil.", como afirmou Maria Luísa Silva Bastos, com quem trabalhou na AFPP. ("Capital" 9/3/83) Assim, matriculou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa. Terminado o curso, em 1936, Maria Isabel foi logo convidada pelo professor Matos Romão para assistente de Psicologia Experimental, que não aceitou por razões familiares, pois os filhos eram ainda muito pequenos. Em 1938 apresentou a tese de licenciatura sobre a influência dos descobrimentos na sociedade portuguesa, que defendeu brilhantemente. Munida do diploma, fundou com o marido o Colégio Fernão de Magalhães na Rua dos Lusíadas, em Alcântara que, pela qualidade do ensino ministrado, adquiriu um enorme prestígio.

Foi esse prestígio, a grande frequência e os princípios pedagógicos ali desenvolvidos, nada frequentes nessa época, que desencadearam as primeiras perseguições do regime. Talvez porque o ensino do Colégio fosse laico, mesmo no prédio ao lado foi fundado um colégio religioso, o Ave Maria. Este foi o primeiro confronto.

O Dr. Matos Romão, que tinha enorme consideração pela Dra. Maria Isabel, voltou a convidá-la em 1941 como assistente para a cadeira de Psicologia Experimental, o que ela aceitou. No ano seguinte, com 39 anos, perdeu o marido, o que para ela foi um enorme golpe. Mas continuou; e poucos meses depois o seu nome foi aprovado pelo Conselho da Faculdade de Letras como assistente de Psicologia e também para ensinar Filosofia Antiga e História da Filosofia Medieval. Mas em Dezembro de 1942 foi afastada por veto do ministro da Educação, Mário Figueiredo.

Manteve-se ainda como assistente de Psicologia Experimental por insistência do Dr. Matos Romão que a defendeu junto do ministro. Mas as imposições que limitavam a sua actividade docente eram tão contrárias aos seus princípios e à dignidade que a caracterizava, que acabou por abandonar o ensino universitário em 1943. Esta foi uma segunda fase das perseguições de que foi vítima.

Já então tinha iniciado alguma actividade política ligada à oposição antifascista onde se encontravam amigos de longa data do casal. Seu filho Carlos Aboim Inglez contou-me que em casa dos pais conheceu, corno visitantes assíduos, o professor Bento de Jesus Caraça e Ramos da Costa, que eram membros do Partido Comunista (Ramos da Costa passou mais tarde para o Partido Socialista) e ainda o professor Dias Amado e Manuel Mendes, entre outros intelectuais com os quais conviveu quando era muito jovem. A seguir ao fim da guerra aderiu ao então criado Movimento de Unidade Democrática (MUD) e em 1946 foi a primeira mulher a fazer parte da sua comissão central. A tomada dessa clara posição acarretou-lhe novas perseguições. Porque era reconhecidamente pioneira no ensino da Sociologia em Portugal, o Dr. Gentil Martins, director do IPO, convidou-a para leccionar um curso de Sociologia Geral na Escola Técnica de Enfermagem do Instituto Português de Oncologia. Só conseguiu dirigir esse curso nos anos de 1947 e 1948, pois foi proibida pelo governo de continuar a dar essas aulas em 1949. Mais uma perseguição, esta sem dúvida ligada ao facto de nesse ano fazer parte da comissão central da candidatura do general Norton de Matos. De resto, já nessa altura tinha um longo cadastro na PIDE. E a sua intensa actividade na candidatura do general Norton de Matos, com conferências, documentos de que foi

autora e abaixo-assinados, levou ao encerramento e cassação do alvará do Colégio Fernão de Magalhães e ainda, por decisão do Conselho de Ministros, foram-lhe retirados todos os diplomas que lhe permitiam leccionar.

A política fascista de tirar o pão aos adversários roubava a esta mulher, viúva e com cinco filhos, os meios de ganhar a vida profissionalmente. Verdadeiramente indomável, ela não vergou e montou um atelier de costura, ao mesmo tempo que começou a dar explicações e a fazer traduções. Mas as perseguições não se limitaram a ela própria e posteriormente alargaram-se também às filhas, pois foi retirado à filha Maria Luísa, pintora, o diploma que lhe permitia dar aulas de desenho na Escola Marquês de Pombal e a filha Margarida, engenheira agrónoma, que ficara em primeiro lugar num concurso público, foi impedida de manter-se na função pública. Em 1953, foi convidada a reger uma cátedra numa universidade brasileira dado o seu grande prestígio e também porque no Brasil estavam já vários amigos e conhecidos, que faziam parte dos muitos professores universitários demitidos por Salazar, numa razia que foi uma autêntica perda nacional. Entre eles contavam-se os professores catedráticos Zaluar Nunes, Pereira Gomes, Rodrigues Lapa, Agostinho da Silva e Jaime Cortesão, todos no Brasil. Mas a Maria Isabel foi recusado o passaporte, quando ela já tinha feito o leilão do recheio da casa e de grande parte dos livros e se preparava para

partir. Estas perseguições não a demoveram, talvez lhe tivessem dado mais forca para a luta, pois a sua actividade política até parece ter aumentado a partir daí, para além do grande e constante apoio que deu sempre ao seu filho Carlos, militante destacado do Partido Comunista Português, no decurso das numerosas prisões e dos anos que este passou nos cárceres fascistas.

As posições de Maria Isabel Aboim Inglez em relação ao Partido Comunista, a única força política organizada da Oposição, foram sempre muito claras: nunca foi membro do Partido Comunista, mas acompanhou sempre as posições do Partido nos vários movimentos da Oposição antifascista, quer no MUD, em que fez parte da direcção central, quer depois apoiando o MND, em que por divergências, já não participaram anteriores membros da direcção do MUD. Teve também um importante papel na Associação Portuguesa Feminina para a Paz e na luta pela Paz.

Com uma grande independência de pensamento e forte personalidade, dava sempre a sua opinião com frontalidade quando discordava, discutia muitas vezes com uma forte argumentação, como dizia dela Joaquim Pires Jorge, dirigente do Partido Comunista que com ela contactava.

Destacou-se sempre como uma personalidade de primeiro plano na defesa da unidade das forças democráticas e pela sua lealdade para com o Partido Comunista e os compromissos assumidos, quer nas várias campanhas democráticas, quer em todos os momentos eleitorais da época. Acentuo que, por exemplo em 1957 foi membro da Comissão Central da candidatura de Adindo Vicente, que era o candidato apoiado pelo PCP, e só depois da fusão das duas candidaturas é que apoiou a de Humberto Delgado, o que diz muito sobre as suas opções.

Também serviu muitas vezes de testemunha nos julgamentos políticos. A sua força, coragem e convicções são claramente reveladas na afirmação que fez, em pleno Tribunal Plenário fascista: "Todos os indivíduos que não prestam declarações na polícia são dignos de admiração porque são amantes da liberdade". E terminou dizendo; "é de louvar o Partido Comunista Português por assim proceder".

Afirmações como esta, mas particularmente algumas das suas conferências, como a que proferiu durante a campanha eleitoral de Norton de Matos com o tema "Conceitos de igualdade, liberdade e democracia", publicada pelos serviços da candidatura, o artigo intitulado "A Ética e a Política" publicado pela "República" quando do acto eleitoral de Novembro de 1961 para o qual só não foi candidata pela CDE porque verificou ter sido riscada dos cadernos eleitorais e que é um completo desenvolvimento programático antifascista, a própria tese de licenciatura, entrevistas e muitos outros documentos da sua autoria, mereciam ser estudados para melhor conhecermos a orientação e a profundidade de pensamento desta mulher.

Num debate em que criticava artigos da "Seara Nova" marcou a sua firme oposição crítica à teoria da cultura pela cultura, afirmando: "Duma elite de intelectuais nunca poderá esperar-se a realização das transformações necessárias para uma verdadeira democracia. Ela tem de ser a obra de todo um povo".

Há também por exemplo, uma conferência importante, proferida em 1950 em homenagem a Bento Caraça, de que citarei alguns excertos:

"Os destinos da humanidade preocuparam-no mais do que o seu próprio destino, os destinos do mundo tanto como os da sua pátria. Quanto o seu espírito estaria atormentado pela evolução destes dois últimos anos, em que abertamente se tem caminhado para uma nova tentativa de fascização do mundo capaz de conduzir pela terceira vez numa só geração a uma criminosa terceira guerra imperialista. Através de uma chamada guerra fria - termo que deixará tristemente célebre o povo que a inventou - friamente se preparam os meios científicos da morte de populações inteiras, de verdadeiras destruições em massa."

Estas são afirmações que mantêm hoje plena actualidade. No fim dessa mesma conferência, contrariando as imposições políticas do governador civil de Lisboa ao permitir a sessão, leu uma moção recebida na mesa que exigia a imediata libertação do professor Ruy Luís Gomes e dos democratas presos com ele. E afirmou que, como presidente dessa assembleia, o fizera porque queria manter a sua honra e dignidade. No dia seguinte recebeu de Maria Lamas uma carta emocionada em que esta afirmava : "...Considero histórica a sessão de ontem. A sua extraordinária coragem moral foi a melhor e maior homenagem que era possível prestar à memória do Professor Bento Caraça. (...) Não me surpreendeu a sua decisão e nobre altivez, pois de há muito admiro a sua personalidade, a sua inteligência e firmeza. Mas o que se passou ontem, na modesta sala da Sociedade Instrução e Beneficência José Estevão, foi qualquer coisa excepcional e inesquecível."

Também para nós, hoje, esta é uma grande lição, pois na luta que travamos, não só contra o inimigo principal, que é o capitalismo e o imperialismo, contra o governo, seu lacaio, mas também dentro das nossas próprias fileiras, é indispensável manter a coragem de afirmar com firmeza as nossas posições, mesmo quando discordantes, pois a unidade de combate só se consegue com a discussão franca e livre dos problemas, que promova a unidade de pensamento indispensável à unidade consciente da acção para a vitória dos nossos ideais.

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Intervenção de Margarida Aboim Inglez

Homenagem a Maria Isabel Aboim Inglez  - 8 de Março de 2013

 

Cabe-me a tarefa de dizer algumas palavras em nome da família de Maria Isabel Aboim Inglez.

A minha avó Maria Isabel Aboim Inglez casa-se com 20 anos com Carlos Lopes Aboim Inglez, engenheiro no sector petrolífero, cujo pai fora ministro da República e que, enquanto republicano, fora perseguido pelo regime fascista. Ambos democratas, a sua casa torna-se um ponto de encontro de personalidades como Bento de Jesus Caraça, Dias Amado e muitos outros. Quando o meu avô adoece com um cancro a minha avó decide, já com cinco filhos, tirar o Curso de Letras. Fica viúva com 40 anos e tem de trabalhar muito para criar os seus 5 filhos e conseguir sobreviver, tanto mais que era perseguida por não ser católica e ser antifascista. Montou um colégio - o Colégio Fernão de Mgalhães, onde foi professora. Lecionou também na Faculdade de Letras, ainda deu aulas de sociologia na Escola de Enfermagem da Rockfeller no IPO, e quando foi proibida de lecionar pela ditadura fascista, aceita um convite para ir dar aulas no Brasil. Nessa altura não a autorizam a ir para o Brasil e retiram-lhe o passaporte. Monta então um atelier de costura e depois viverá até falecer dando aulas particulares. Inicia a sua actividade política com o MUD, em 1947.

É uma tarefa difícil falar sobre a minha avó porque, por um lado, se trata de uma família numerosa: a sua primeira filha, também ela Maria Isabel (já falecida) viveu com ela até à sua morte, Maria Luísa (aqui presente), Maria Margarida, Carlos e António (ambos falecidos), que criou e amou com ternura imensa, sempre disponível para os ajudar e ensinar - porque a sua vocação para o ensino a levou a ser simultaneamente professora e mãe - e por estar sempre presente (mesmo quando ausente fisicamente) quando dela necessitassem. Porque também foi irmã e tia e também deu aulas a alguns dos seus sobrinhos e porque foi também avó de nove netos, dos quais a sua curta vida apenas lhe permitiu conhecer cinco. Porque, com a coragem de lutadora que foi em toda a sua vida, enviuvando cedo e enfrentando enormes dificuldades já aqui assinaladas, incluindo financeiras, cria e acompanha de perto a vida dos seus filhos.

E porque, por outro lado, não é fácil exprimir com rigor toda a dimensão da importância que a sua figura, a sua personalidade invulgar, a sua cultura integralmente humanista e a sua actividade cívica tiveram para os seus familiares, tanto pelo exemplo como pela repercussão em toda a família das perseguições de que foi alvo. A sua firmeza de carácter e a sua tenacidade, os ideais de antifascista e de lutadora pela liberdade e democracia que abraçou, como disse o meu Pai "a sua postura (...) toda a sua atitude e comportamentos morais, as perseguições que lhe moveram, incluindo as prisões, tiveram uma influência enorme na sua família". Também os seus filhos foram perseguidos, por serem seus filhos e porque de uma ou outra forma, seguindo o seu exemplo, também eles participaram - de forma diferenciada, é certo - na luta antifascista, na luta pela liberdade e democracia no nosso país.

Duas das suas três filhas (a Maria Luísa e a Margarida) foram alvo de perseguições: a primeira foi proibida de lecionar, a segunda foi expulsa da Função Pública pelo regime fascista e apenas foi reintegrada após o 25 de Abril. Noutro plano, e pouco tempo após ter enviuvado, enfrenta ainda a grave doença que o seu filho mais novo, António, contrai ainda adolescente. Doença que irá implicar uma hospitalização muito prolongada, que acompanha dedicadamente sem que, por momento algum, descure os outros filhos também eles sofrendo com a doença do irmão.

Segue com grande coragem e defende a actividade política do seu filho Carlos, que adere ao PCP em 1946, passa um período de semi-legalidade, e "mergulha" definitivamente na clandestinidade no início dos anos 50. Quando o meu Pai é preso pela última vez, em Junho de 1959, no dia seguinte a nossa casa é assaltada pois ela já tinha sido detectada pela PIDE a minha mãe Maria Adelaide Dias Coelho Aboim Inglez e eu, ainda não tinha cinco anos, fomos presas, levadas para a Sede da PIDE na António Maria Cardoso (hoje um condomínio de luxo) e depois para Caxias.

Para além da permanente exigência da minha mãe de me entregar à família, o que consegue cerca de uma semana depois da prisão, é a minha Avó quem se dirige à visita em Caxias para eu lhe ser entregue. Viverei com ela e a minha Tia Isabel até 1962. Desses poucos anos recordo a viagem de Caxias até ao Estoril, onde vivia, no seu "2 cavalos" - que viríamos a chamar de "tio Pantufa" (os netos mais velhos que a conheceram), da forma terna como me "conquistou", como seguia a escola que passei a frequentar e os trabalhos de casa, mas também as conversas e brincadeiras que tantas e tantas vezes tínhamos. Após a libertação da minha mãe, um ano e meio depois também ela, a minha mãe, vem viver para casa da Avó.

Mãe solidária, acompanha e intervém activamente nos processos que a PIDE move ao seu filho Carlos - meu Pai, discutindo com ele e com os seus advogados a defesa, redigindo numerosas cartas e petições, nas diversas vezes em que é presente aos tribunais fascistas. A sua presença nas visitas na prisão de Peniche marcou uma geração de familiares dos presos, incluindo os filhos - crianças ou jovens -, porque não as assumia apenas como visita a um familiar, mas como ocasião de dar um exemplo de firmeza moral, de coragem cívica e de dignidade no trato com o aparelho prisional.

Por tudo isto é com inteira verdade que há bem poucos dias, netos que a não conheceram, diziam que a Avó - Maria Isabel - continuava presente nas nossas vidas.

Foi uma mulher excepcional cuja craveira intelectual e invulgar personalidade nos colocam perante uma questão ainda actual: a de que, entre os enormes danos que o fascismo provocou ao país, a marginalização e a perseguição a tão grande número das suas melhores figuras de intelectuais não estará certamente entre os menores.

Saibamos nós ser continuadores dos seus valores políticos, da sua firmeza perante os inimigos e da sua abertura perante as diferentes correntes antifascistas, dos valores éticos, morais, e culturais, dos valores da liberdade, da democracia porque se bateu em toda a sua vida. Será, certamente essa a melhor homenagem que lhe poderemos prestar projectando-os para o futuro, para um Portugal verdadeiramente livre e democrático.

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